Por estes dias dei de caras com mais um acontecimento insólito e desprovido de qualquer sentido, que não seria ou teria chegado a ser um… acontecimento, se não fosse tão absurdo!
Parece que uma senhora, de seu nome Maria, apresentou uma queixa-crime (atenção que isto é coisa séria) contra o administrador executivo do Departamento de Jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). O melhor vem já a seguir.

Segundo consta, “sô dona” Maria, “diz-se” (não foi proclamada, proclamou-se) viciada em lotaria instantânea, o nome fino e quase nobre da ofendida, a raspadinha.
Devo dizer que me parece uma enorme falta de respeito para com a raspadinha, que assim como quem dá cá aquela palha agora lhe mudem o nome só para parecer melhor junto dos senhores das notícias e dos tribunais. Raspadinha não tem classe suficiente, é isso? A pobre coitada não faz mal a uma mosca.
Já com a “cueca”, no futebol, fizeram a mesma coisa. A palavra era muito forte, associada à humilhação de quem a “leva”, aos uis, eish e gargalhadas de quem está à volta, tornava-se um “cocktail” brutal, vai daí, a bem do espectáculo e de modo a não ferir qualquer susceptibilidade, muda-se o nome à “cueca”, e foi então que se lembraram de lhe chamar… “túnel”, para doer menos… ou “uma maldade”, muito mais digno e menos jocoso.
Não tenho presente que a associação de futebolistas de favela, ou mesmo que a liga dos amigos da rabia se tenham insurgido contra a indústria, numa tentativa de impedir ou de reclamar do que quer que fosse.
Nem tão pouco alguém alguma vez viu ou ouviu “um gajo” que passe a vida a levar “cuecas” (sou pelas coisas como elas são e com os nomes que elas devem ter!) a processar a FIFA, a UEFA, a marca das bolas com que joga, ou das chuteiras que calça, por culpa das suas pernas, constantemente… abertas.
Aos 39 anos, a “sô dona” Maria diz que estoira em raspadinhas uma grande parte do que ganha a trabalhar como prostituta. Diz que as que mais a… seduzem são as “mini Pé-de-Meia”, que têm como prémio máximo 500 euros/mês durante cinco anos. É de salientar que não há qualquer rancor da “sô dona” Maria para com a raspadinha. Trata as mesmas com uma afectividade quase comovente… não fosse o facto de estar agora a processar quem considera ser responsável pelo seu “vício”.

Numa primeira fase, os advogados que a representam trabalharão quase como voluntários. Esta dupla de justiceiros pouco ou nada interessados em honorários, decidiram invocar “publicidade enganosa e ausência de política de jogo responsável” para defesa da sua cliente. Na verdade ainda não percebi porque razão a Raspadinha, o Euromilhões ou os Casinos não têm letreiros acessórios a dizer:
“Por favor não jogue! Isto vicia quase tanto como cocaína! Jogar na raspadinha pode matar e até ajudar a desenvolver doenças como a tendinite dos indicadores ou queda das unhas”.
Os doutos advogados avançaram então com um pedido de indemnização de valor equivalente em realidade à génese desta mesma queixa, um milhão de euros, mai’ nada! (Só para não voltarem a brincar com os sentimentos e debilidades das pessoas.)
Acabaram, todavia, por avançar com uma queixa-crime, convencidos de que atrás da lotaria instantânea há uma burla. Eu também estou convencido de que há burlas diárias no país, muitas debaixo dos olhos do Estado e não é por isso que vou agora processá-los a “torto e a direito”, ainda para mais quando a senhora ministra da Justiça passa a vida a dizer que os tribunais estão atafulhados até às orelhas, de processos insignificantes que complicam a engrenagem. Que falta de bom senso, “shôtores”!

Dos “malandros” da Santa Casa, “esses pulhas”, apenas a seguinte reacção: “A SCML explora jogos sociais responsáveis, uma vez que estes são geridos em nome do Estado, [pronto, com esta é que estragaram tudo!! “Geridos em nome do Estado”, então vocês apresentam um argumento destes? Agora é que arranjaram a bonita!] nos termos da legislação e da regulamentação aplicável, sendo as receitas do jogo devolvidas à sociedade, sob a forma de prémios, de financiamento de políticas sociais e receitas fiscais.”

(Está a ver “sô dona” Maria, “devolvidos à sociedade”… Mas a senhora não consegue esperar, não é? Não lhe parece óbvia a natureza destes jogos de… sorte/azar. É mesmo viciadinha não é? Sua malandreca! E como não consegue fazer o óbvio, não jogar, pimba: processo para cima deles! Quem processa assim… não é gago.)
Quero deixar aqui uma palavra de conforto à “sô dona” Maria.
Não é bonito viciar uma pessoa só por… maldade! Não se faz! De tanta gente no país foram viciar justamente a senhora, os patifes… Pense que pode ter sido a primeira a ter coragem para “dar a cara”… Uma moeda tem sempre dois lados, não desanime!

Deve ser isto a que o Governo se refere quando diz para sermos empreendedores e criativos e nos pede que ponhamos a criatividade ao serviço do país. Aqui está uma obra de arte.

Pelo sim pelo não… talvez não compre uma raspadinha tão cedo. Nos dias que correm todo o cuidado é pouco.

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