A idade dos Deuses

velhotes
Esta semana passei de forma trôpega e atabalhoada por um daqueles dias mundiais com que as entidades gostam de brindar os mais velhos – e não os mais crescidos – no sentido de ver se os calam e lhes arrancam da cara o sorriso falso e entristecido, o mesmo que anda por lá escondido entre os dentes cerrados pela dor de se ser já crescido demais para um país que parece querer enterrá-los ainda a respirar. (Que rica forma de poupar, de cortar, de fazer morrer sem ser preciso assassinar)
Nem por acaso e muito menos de propósito apeteceu-me, nesta segunda-feira última de Outubro, visitar a minha “velhota”, a “velhota” que mais amo nesta mundo de dementes e alucinados, a minha Santa Avó!
A minha “velhotinha” (sou tão português quanto os diminutivos que teimo em usar) tem 82 anos.
A minha “velhota” teve 10 filhos!
A minha “velhota” perdeu dois deles e por fim, há quase 3 anos, também o marido o destemido Tempo lhe tirou!
Se o Tempo tem grandezas admiráveis – e Ele tem algumas – uma delas é a sabedoria superior que não raras vezes confere aos mortais, ricos ou pobres, pretos ou brancos, e a todos os outros também.
A todos o tempo embranquece os fios do cabelo e lhes endurece as rugas à pele, fielmente dispostas em jeito de tatuagem de uma vida mais que vivida, de uma vida dedicada, de uma vida que teve propósito e teve tempo!
A minha “velhota” não me lê, mas eu leio-lhe o que penso em voz alta e ela fica ali de mão na face e olhos semicerrados a escutar-me com toda a atenção que o Tempo lhe permite conceder-me.
Velhice, reclamam conformados. Donos de uma beleza messiânica, contraponho eu!
O cansaço que expurga dos seus olhos enevoados e da dor que lhe conferem os pés constantemente inchados atira-lhe a paciência para mais longe, mas não lhe furta o sorriso, aquele sorriso… e aquela inata capacidade de ser mãe ao quadrado (mãe2)
Florbela Espanca cantou que “ser poeta é ser mais alto”, pergunto-lhe agora Florbela, ser “velhote” é ser mais quê?
Bem sei que resposta lhe haveria de dar…
Sou apaixonado pela minha mãe e crente na minha Avó.
Isso mesmo, crente!
Elevo-A com um orgulho quase bíblico e, de peito cheio, coloco-a bem lá no alto, numa espécie de pedestal cristão onde não lhe chega a podridão deste pós-modernismo amputado em que passeamos a carcaça que de nós ainda resta.
Fui contar-lhe um segredo, dos meus, grande e desagradável, dos que doem, que ainda era para Ela um segredo, mas que o vigésimo sétimo sentido de uma deusa de 82 anos há algum tempo vinha pressentindo, o que, por sua vez, me provocava um mal-estar cada dia maior!
Aos 30 anos fui “ajoelhar-me perante um dos meus deuses” e confessei-lhe o meu pecado… Ouviu, perguntou, ouviu mais, quis perceber, franziu a testa enrugada, encostou a cabeça já cansada e… sorriu-me com aquela meiguice acriançada que magicamente consigo eternizar dentro dos meus olhos!
Descobri-lhe nos braços um abraço diferente, o abraço preciso e necessário, encontrei-lhe no cheiro a paz que tanto falta na juventude, com um beijo na testa me despedi, como sempre, deixei-a na farmácia e levei-me até casa, onde cheguei e chorei…
Chorei!
Chorei com pena de quem não pode descobrir no seu “velhote” a divindade, chorei pelos “velhotes” a quem falta um abraço sem idade!
Chorei porque o Tempo teima em não correr e não andar ao sabor do entendimento de cada um! Chorei porque temo o dia em que o Sindicato dos Deuses diga à minha “velhota” que é hora de ir embora…
Chorei porque vou ser velhote! Chorei porque quando lá chegar não A terei por perto para me ensinar a ser um lindo velhote, para não me deixar ter medo da morte!
Em Portugal até para ser velhote é preciso muita sorte!
A riqueza de um homem é uma aos 30 e outra bem diferente aos 80.
Aos 30 esta ideia de riqueza está umbilicalmente assente na grossura da carteira, já aos 80, existe em forma de conversa, de abraços, de histórias, de sorrisos e partilhas, de filhos e filhas, de chás, biscoitos e outras maravilhas.
A revolta assume contornos de impotência quando vejo nos olhos da minha Avó, e de tantos outros avós deste país, o medo do que lá vem, o assalto descarado a tudo o que têm, o temor do terror do fim dos seus tempos.
O medo expresso na preocupação inata com aqueles que cá ficam! As dores dos outros não doem mas teimam em ficar presas no limiar da memória.
Quantos anos terá a minha avó quando eu já for velhinho? Será intemporal. Nunca ninguém se questionou sobre a idade de Deus.
Os deuses não têm idade. Vivem na capacidade divina e própria de serem o que são.
Ser Deus não paga imposto mas não lhe retira o ardor de um desgosto.

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