Deixa-me desde já avisar-te que ao longo desta dissertação te irei tratar assim, por tu, dirigindo-me sempre a ti desta forma directa, utilizando sempre a 2ª pessoa do singular, como se conversa com qualquer pessoa com que se tem um grau de confiança elevado e um capital de proximidade inquestionável e irredutível. É pois por isso que não tenho qualquer pudor em falar contigo desta forma, quase como se te pudesse olhar nos olhos, bem lá dentro, onde vivem todas as tuas certezas e inquietações, todas as tuas histórias, todos os teus arrojados e despeitados subterfúgios, aqueles que usas para atormentar todos aqueles que conheces.

Não tens vergonha? Não tens um pingo de decência na verdade.

Não há em ti qualquer ponta de bondade. Não tens sequer uma identidade, um rosto, uma tromba nojenta que se possa encher de estaladões, nada.

Não tens nada disto, mas és tão humano como outro filho da puta qualquer.

Ouve-me bem porque não quero estar a repetir isto mais vez nenhuma, nenhuma, estás a perceber?!

Aquilo que fazes com as pessoas é abjecto, vil, cruel, sádico e chega a arrepiar, a provocar uma sensação de desespero e impotência quase impossível de combater.

Compreendo que és muitas vezes um mal necessário, que tantas outras precisamos na verdade de nos socorrermos de ti para sobreviver, que és tu quem nos mantém alerta, de “pestana aberta”, que, como o disse e bem José Luís Peixoto, és tu quem “em certa medida ajuda a que se equilibrem alguns elementos e se tenham certas coisas em consideração”, não posso estar mais de acordo e todo e cada um de nós já sentiu e já se viu envolto numa qualquer casualidade mergulhada de pavor, em que foste de facto tu o responsável por não nos termos magoado, por não nos termos desviado, por termos seguido o caminho que está certo e que nos é mais indicado e não o caminho sujo que segue um desalinhado.

De facto ajudas a que nos regulemos, de certa forma permites que aprisionemos na impossibilidade de fazermos tudo o que nos passa pelas mentes que vais retorcendo a teu bel-prazer, meu nojento e maquiavélico manipulador de homens.

És quase palpável e tangível, pelo menos colho frequentemente essa mesma sensação, a ideia quase, quase real, que é perfeitamente possível roçar a sensação plena de te sentir o odor, quase, mas nem o quase chega para te alcançar por entre os dedos, vontade superior essa de te castigar por todos os castigos que infliges em quem não te consegue fazer frente, porque, mais do que tudo aquilo que em nós provocas, o que se passa é que de facto tens todas as características de quem vive e existe no mundo dos homens.

És mau, és sujo, desleal e falso, inversamente és tantas vezes absolutamente magnífico e sedutor, cantando com a melodia da hipnose que cantavam as sereias que quase levaram Ulisses à loucura.

Por vezes quente e sereno, mas, indo à raiz real da tua natureza, és o que de mais repugnante e execrável vi em toda a minha ainda curta mas já preenchida vida.

Confesso que não tenho na verdade o pesaroso hábito – ou costume, como preferires – de costumar prestar-te muita atenção no decorrer normal do normal dos dias, talvez por isso mesmo não tenha assim muito respeito ou consideração por ti.

És exactamente simétrico de todas aquelas pessoas com quem se trabalha e de quem nada se sabe ou quer saber, de todos aqueles que sabes serem maus pela exclusiva aspereza do carácter, pela tenebrosidade do olhar frio e tantas vezes maldoso, igual a todos os que não queremos, de quem não gostamos, que não amamos, de quem queremos distância, és, durante grande parte da vida que vivo, quase imperceptível.

Contudo, e talvez por isso mesmo, porque me atrevi a tratar-te com desdém e com alguma superioridade até, resolveste ir mais longe e tentar assustar-me de verdade com uma doença, aquela de quem todos fogem mas que de um modo ou de outro todos vão conhecendo com menor ou maior grau de dureza, tristeza e crueldade.

Não foi um daqueles horrorosos e impiedosos monstros que retiras das grutas enlameadas, insalubres e repugnantes onde escondes os teus mais horripilantes soldados, cheias de um muco viscoso que escorre pelas paredes, onde a luz é estreita e tremeluzente, ainda e toda ela obtida à custa dos archotes artesanais e rudes que penduraste nas paredes, como se de Picassos ou Dalis se tratassem.

Fiquei perdido de raiva, apoderou-se de mim uma fúria perfeitamente justificada e se te tenho encontrado em pele e ossos naquele momento, nem sei bem o que te poderia ter feito, tinha as veias do pescoço a saltitarem como uma criança feliz num trampolim.

Levou tempo, é certo, mas encontrei-te.

Tinhas que te ter esforçado mais, muito mais. És um merdas.

Digo-te aqui – como se estivesse novamente a falar-te nos olhos – que a mim não me assustas com tamanha facilidade. Já vivi várias vezes, já morri outras tantas e continuo aqui, ouviste? Continuo aqui e muito honestamente, para já, não me pareces com força suficiente para me fazeres abrandar ou sequer desviar-me do meu caminho, do caminho que traço para mim.

Fizeste-me tremer, confesso-te.

Não tenho nem nunca tive qualquer problema em dizer-te que temi – e ainda temo, uma vez que esta brincadeira ainda não terminou – pela minha saúde de uma forma consciente, que se tornou ainda mais indignada porque, na verdade, quando te armas em engraçado e te pões com brincadeiras destas, não te apercebes que estás a brincar não apenas comigo mas com todos aqueles que me estimam, que me amam e que se aprontam em temores e lágrimas de dúvida, que veem abanadas e chocalhadas as suas realidades, que se desordenam os seus sonhos, que se magoam as suas almas que são pouco dadas às coisas más.

Isto não entendes tu! E fazes o favor de não virares a cara para o lado, como quem tem até alguma vergonha do que faz e se sente embaraçado com a crueza real das palavras que é obrigado a escutar.

Meu menino, que brinques comigo no cárcere íntimo do meu pensar, até to permito, agora que brinques com aqueles de quem gosto, com aqueles que de mim gostam, isso não consigo perdoar-te de forma alguma porque não existe na língua dos homens, seja ela qual for, nenhuma justificação de que te possas socorrer para me explicares condignamente aquilo que fazes.

Pareces-te mais com aqueles com quem brincas do que alguma vez pudeste imaginar.

Comigo tens e vais ter sempre um azar que talvez não esperasses, comigo terás sempre de lidar com alguém que não tem medo de ter medo e sobretudo que há já algum tempo que deixou de ter medo de si próprio.

Aceito-te, com maior ou menor grau de (in)satisfação, com menor ou maior capacidade de perceber a tua pertinência, mas uma coisa é certa, não fujo nem nunca te fugirei, porque pese embora toda a merda que és e representas nas mais diversas situações em que te impões, como se impõe a madrugada, a chuva e alvorada, como se impõe a primavera e o inverno e todos os estados de alma, como se impõe a morte, aceito-te naturalmente, ainda que nos olhos carregue por vezes a dor das lágrimas que me fazes verter, a dor de olhar para quem me vê sofrer, a tristeza encastrada no rosto de quem me viu nascer e é isso que me faz ter-te uma repulsa incomensurável meu porco.

Arranjaste aliados, amigos e interessados que se venderam à tua propaganda, que se converteram em instrumentos disseminados dos teus intentos mal-intencionados e que se munem das armas mais cruéis para atormentarem os seus semelhantes.

Só assim se explica a tua impressionante e inquestionável ubiquidade, só assim se justifica a tua presença em toda a parte, quase tão grande como grandes são os Deuses.

E, no entanto, não creio que Deus algum, em momento nenhum te tenha glorificado. Não és um anjo escorraçado, não és filho do diabo, és dor e temor por trás de um corpo sujo num qualquer rosto mascarado. Se ao menos te pudesse mesmo encontrar os olhos…

 

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One thought on “À conversa com o Medo – Parte I

  1. Thanks for the article Mr. Norris. One is left wondering which of these two men out does the other in stupidity. Both had ample time to consider their actions and still acted to their own detriment. Mr. Cuban should have to eat his own conspiracy cooking when one wonders was this stupidity or an elaborate plan by Cuban and an SEC hack to embarass the Law Enforcement Agency into going light on Cuban.
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