Sou português, e agora?

É um pouco disto e também um cheirinho daquilo e, no fundo, mais não é do que um pouco mais do mesmo.
Nasci em Lisboa, há 29 anos, ou quase 30.
Há muito dirão alguns, há tão pouco digo eu, parece que foi ontem dirá eternamente a minha santa mãe.
Vou deixar de escrever como escrevo muitas vezes.
Vou deixar de dizer as coisas como digo outras tantas.
Escrevo do que falo, do que ouço, do que escuto e o que penso.
Penso que escasseia o bom senso neste revolto espaço imenso.
Sinto que não há sentido no sentido em que estamos.
Sinto que o pior não é o que já passou mas aquilo em que já nem sequer pensamos.
É como se o pior pudesse chegar no dia em que já não se puder prometer nada a ninguém!
De tudo acontece, tudo se passa e tudo se sabe e se vai sabendo, tudo se faz e se vai fazendo, a todo o lado se chega e de tudo se fala e se vai falando, mas o sonho morre de quando em vez e também, por vezes, de vez em quando.
Mais na vez do que no quando.
Quando chega afinal a vez?
O que é isto afinal de ser português? 
Tenho para mim que somos, Nós, os portugueses, com toda a insofismável certeza, o mais crente e dedicado povo de toda esta Europa quase anciã.
Somos possivelmente os únicos que continuamos a acreditar que um dia isto vai melhorar, que, como diz o “nosso” Jorge Palma “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”.
Somos do Fado, do agrado, do sol e do peixe assado, do caldo entornado, do almoço bem regado, do carapau e do bacalhau demolhado, do caracol e da sardinha, continuamos a acreditar que a gente em Espanha é boazinha, que podíamos ser todos o saco da mesma doce farinha. 
Pomos gente invertebrada, bem vestida e bem sentada, a falar na televisão.
E o povo? Comenta, mas rapidamente aceita, acredita.
Come e não vomita, sofre e já nem grita.
Acreditamos nos de fora, nos de dentro, em todos e mais alguns, nas previsões e correcções, nas alterações das correcções, em quem diz palavrões, em quem nos aperta os… botões!
Será que algum dia existirá maldade dentro dos nossos corações?
Será que nos tornaremos algum dia capazes de grandes manifestações?
De romper com tradições?
Algum dia deixaremos de ter medo dos bastões?
Como quando enfrentámos lanças, arcos, flechas e canhões?
Será que aos bolsos nos podem amavelmente devolver os tostões, descaradamente furtados em impostos como sempre justificados e mais do que precisos.
Confusões e sensações em sacos e sacões de sentimentos confundidos, de horizontes percorridos e de sonhos destruídos.
Quem é o guardador do rebanho?
Será por ventura um homem só ou alguém do meu tamanho?
Na verdade pouco ou nada se sabe, pouco ou nada nos dizem e no fundo não há porque não deixarmos de perguntar.
Há sobretudo uma vontade imensa de parar de sofrer, de abandonar o queixume vazio e desprovido de justiça, uma vontade de ver a vida a cores, com degradês, de ouvir entoações e entoares de cantos mil… de ver nas janelas a geometria das figuras humanas e animais, de sol tapado pela peneirice dos ombrais.
E tu?
Estás disposto a quanto mais?
Estás perdido em arraiais, insensível e despreocupado, a ti tudo te passa ao lado, dizem.
A ti tudo te é igualmente perdoado, atiram.
Pois se não te sentes incomodado, se não estás sequer preocupado, mantém o bico calado e a fronha virada para o nada, para que não seja necessário seres daqui corrido à bordoada, ao murro e à estalada. Palhaço. 
Devolvo à alma ao teu regaço, cansado de tanta apatia. Sento-me à beira dos teus sonhos e observo-te com magia. Estrelas mil que me guiam na tua noite e eu sem saber mais em que luar me deito. Sei somente apenas que me encosto de qualquer jeito. Deixem-me morrer sossegado com a cabeça sossegada no teu peito. Daqui a nada ressuscito e lembrar-me-ei de sorrir, sim?
Divirto-me, quase que diariamente, a ver os portadores da sabedoria intelectual dos deuses, pavonearem-se com frases refeitas e transcritas, com ideias atrofiadas e quase esquisitas, com definições de amor tão eruditas que denunciam uma coisa só. Estúpidez.
Como se define algo que não tem definição possível?
Como é que se chega à presunção de que amar é qualquer coisa?
Amar não é nada, porque o amor é tantas vezes uma filha da putice pegada.
Amar não é unir é dividir.
Amar não é colar é partir.
Bando de coladores de letras em palavras confusas.
Bando de anormais com ideias obtusas.
Escrevam sobre o que sabem o que vivem e o que sentem.
Não escrevam sobre o nada que não vivem e não entendem.
Podíamos antes pensar e escrever que não há amor como o português. Não há calor como o deste povo que Deus fez e a ganância desfez.
Devíamos não querer visitar cidade alguma de país nenhum.
Devíamos ter tanta vontade de ir aos países dos outros como os outros deviam ter de visitar o nosso.
Devíamos tirar a maquilhagem às cidades, engalanadas prostitutas que se deixam comprar por valores arredondados de turistas deslumbrados.
Nem mesmo à noite lhes damos descanso. 
Assim ficam assadas, de entranhas revoltadas e olheiras denunciadas, apodrecendo sós na imensa noite (im)pura, mas às cidades ninguém presta atenção, interessa apenas desviar a merda do cão, tirar a maquilhagem é coisa para a puta de salão.
Dormir borrada é na cidade a condição!
Na noite… Não, na noite não.
Deixa-me antes reformular.
Na madrugada esquecida, desvirginada e ofendida, perpetua-se o sabor dos cigarros e dos copos de vinho, dos amendoins e do tremocinho, mas sempre sem tirar a pintura, que no manter da compostura, e no prolongar da candura mentirosa, muito pouco escrupulosa, engana até o mais atento.
Ser homem é mais do que isso. 
É identidade e compromisso e vida no trinar das cordas de aço.
Ser português é fado e futebol, é fátima e… tanto mais… Tem cuidado que ainda cais. 
E eu que te amo tanto que não sei sequer o que isso significa?
E eu que de vez em quando, mais no quando do que na vez, me apercebo dos porquês e das significâncias intermitentes que existem na condição do ser-se assim… ser-se Português.
Sou sim, e agora?
Agora?!
Já dizia o outro: Agora mija na mão e deita fora.





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