Vidas sem som

“Inserido no Litoral Alentejano, o concelho de Grândola tem uma área aproximada de 
814 km2, uma extensa costa marítima, e confina a norte com o concelho de Alcácer do Sal, a nascente com o de Ferreira do Alentejo, a sul com o de Santiago do Cacém, a poente com o Oceano Atlântico, e a norte e noroeste com o rio Sado, que o separa do concelho de Setúbal.”
Pelo que acima se pode ler, é de facto um concelho que é… grande, enorme.
De acordo com o Sensos 2011, por meados daquela altura, em Grândola viveriam (no por estes dias tão sobejamente cantado Município) 18.426 almas.
Sem tirar, nem colocar o que quer que fosse, onde quer quer que seja.
Tantas e não tão poucas são as vezes em que escrever sobre o que quer que seja é um exercício de uma obtusa e não menos irritantemente profunda estupidez.
Escreve-se e diz-se tanto nesta “nossa” era moderna… e contemporânea.
Chega a cansar de tanto ler.
Somos forçados a ser leitores estupidamente compulsivos. 
(estou tão alegremente encorajado pela minha estupidez que vou por ai fora)
Somos bem mais permissivos.
Navegamos tantas vezes à deriva por entre a invasão informativa que nos sonega a capacidade invulgar da percepção.
É cada vez mais fácil queimar o coração.
Não venham agora dizer que não. Que não sabiam, que não pensaram, que nunca sequer imaginaram o que seria que tão anunciadamente estaria para chegar.  
Mentira!
Mordaz e incompreensível falsidade de quem não fala jamais a verdade, de quem sabe o que sabe e esconde sem humildade a incapacidade crónica que a cegueira provoca.
Não basta cantar para ser cantor, nem tão pouco administrar para ser ministro.
De nada serve beijar a face a Cristo.
Onde é que eu já ouvi isto?!
E tu?
E eu? 
E eles, e elas, aqueles e aquelas a quem descaradamente se evitam os olhos, a quem se sorri de olhar no vazio, a quem de noite tem fome e frio.
E esses? 
Coelho não comem, na relva não brincam, talvez nem portas tenham, vá, umas cristas nos cabelos, como o Neymar e o Rónaldo.
Mas sonham.
Sonham de verdade.
Serão sonhos tristes, pergunto.  
Atrevo-me a julgar.
Sou insolente ao ponto de tentar atrevidamente imaginar que sonhos sonha quem nada tem.  
Terão todos os do mundo?
E depois vem o outro senhor, que pelo nome deve ser estrangeiro, ou amigo dos estrangeiros, vem ele dizer-me: 
– Não te preocupes Martim, eles aguentam e nós também.
Quem perguntou o que quer fosse? Ninguém.
Quem te encomendou o sermão? (primo do “bicho papão”)
.
Há pois!
Há que eu sei que há. O quê?
Pessoas que vivem vidas sem som. 
Assim mesmo.
Em mute.
Já os outros cantam, com ou sem inocência, com mais ou menos afinação, o cantar que virou canto de uma nação.
Cantam a uma terra que não têm, que não vêem, que não cheiram, não pisam.
Cantam porque lhes pisam os calos.
Cantam porque estão manifestamente cansados de levar estalos.
Podemos então acusá-los?
Podemos pois.
A liberdade tem hora marcada.
Caso contrário… desata tudo à estalada.
Eishhh, que salganhada. E a DEMOcracia enfadada.
Resta-me continuar a querer ser profundamente estúpido.
Também não sirvo para muito mais.
Sou bom em demasia.
Disso eles não querem lá.
Assim sendo, fico por cá, tá?
Diz que quem canta seus males espanta.
Dizia ainda: “Não percas tempo que o vento é meu amigo também”.
Saudades de quando cantar não fazia mal a ninguém.
Espero sonhar esta noite.
E amanhã também.
Espero que sonhar nunca tenha hora marcada, que nunca seja uma coisa triste como é esta da liberdade.
Espero poder cantar no meu sonho.
Espero que Grândola nunca deixe de ser alentejana e que no alentejo se cante até morrer.
Espero poder acordar um dia e recordar apenas este sonho em que todos estamos a viver.
Com som, como sempre.               
 
       
   
                  
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