Carta(s) a si…

O Homem não dorme sobre assuntos coisíssima nenhuma, dorme e ponto final.
Sonha, ou não, de acordo com o porte atlético da alma que carrega às costas, como se de um piano desavindo de notas desvalidas se tratasse.
O mundo está doente, padece, às mãos do capitalismo feroz e do engano de um povo, que mais não faz do que gritar e vociferar palavras reaccionárias a que apelidam de ORDEM.
Ora, é do conhecimento comum, que é a falar que a “gente” se entende, pelo que não vos serve de nada gritar.
Aqui pertinho, a duas viagens de IDA ao Porto de distância, está Madrid, capital espanhola e cidade de enorme expressão mundial.
Se acontece algo informativamente relevante, o mundo saberá num repã…
Curioso como as manifestações comportam sempre realidades quase bipolares e bicéfalas.
E porquê?
Porque numa manifestação de grande escala, não é o motivo que importa, mas sim o número, a dimensão, a grandeza.
Não importa se a génese do protesto é contra a Austeridade, a Gravidade, a Impunidade, a Calamidade ou a Atrocidade que se comete contra quem se manifesta, o que importa na verdade é saber se teve mais ou menos gente do que a manifestação anterior, a guerra dos números entre as centrais sindicais ávidas de protagonismo organizativo e a Autoridade, que aponta sempre estimativas que visam descredibilizar os intentos dos profiláticos manifestantes.
Curioso é o facto de, para se poder ter de facto uma boa “imagem” e “leitura” da força dessa manifestação, temos de recorrer aos meios tecnológicos, que nos permitem, lá do alto dos céus, ou, como na tarde de ontem em Madrid, às câmaras de televisão afixadas em prédios mais altos que as coisas altas e que permitem alcançar, com os olhos no ecrã, o fim de uma avenida ou de uma praça, em Portugal, em Espanha, ou na de Espanha em Portugal.
Nunca fui de manifestações grupais.
Gosto de trabalhar em grupo, mas quando falo, grito, berro ou vocifero em tom de praguejo, gosto que me ouçam, atentamente e de preferência, caladinhos.
Não vou por certo para uma manifestação pôr-me a gritar: “ão, ão, ão o Governo é ladrão”, até porque o Governo não me vai ouvir, mesmo que garanta que não é cego nem surdo.
Como terão sido as manifestações no tempo em que não existiam câmaras de televisão?
Como terão sido organizadas sem o assustador poder difusor do Facebook e Twitter?
Sem as sms e os emails?
Como?
E a pergunta “para queijo” é, como terão elas acabado, na sua grande maioria?

A situação está a agravar-se, está mesmo, basta olhar dentro, bem dentro dos olhos dos que passam e param, dos que fitam e não olham.
Faça-se o seguinte exercício:
Imagine-se uma cidade, uma cidade qualquer, com os prédios de que se gosta, com as lojas onde se sonha, com os carros que se quer e, mais importante do que isso, uma cidade com 5 milhões de pessoas.
Ora acontece que, nessa mesma cidade, as coisas não estão nada bem, e 1 milhão de pessoas resolve sair à rua, em fúria.
Não pode acabar bem, não pode mesmo.
Não há polícia para tanta gente, não há senão na Coreia do Norte ou na China.
Veja-se então a raiz do problema.
A “gente” está aflita, afoita, desesperada, incrédula, injustiçada, revoltada, afónica, cansada e mais grave ainda, é que são muitos, são mesmo muitos… 
O ser humano é capaz de tudo, há muito que se sabe isso, mas veja-se a capacidade mobilizadora do exército popular dos dias de hoje.
Não são precisas horas para convocar uma manifestação de dezenas, centenas de milhares de pessoas, numa praça escolhida sobre o livre e pragmático arbítrio da actualidade.
Em Madrid, quebrou-se uma lei, dezenas de milhares quebraram uma lei. Não podem realizar-se manifestações e/ou protestos de qualquer natureza, quando o parlamento está reunido em “sessão de trabalho”.
Todos sabem. Mas todos os presentes pisaram, calcaram, com botas de Fuzileiro, a lei, a proibição, a norma.

Espanha está em ebulição, e como é grande a ponte que Portugal tem de atravessar para chegar… a França!
Por isso, bem podemos gritar… está visto.

Porque é que chegámos a… isto?
Como é que permitimos que se chegasse a isto?


Estivemos ocupados a olhar para onde?
Quem escolhemos nós para nos conduzir?
Diga-se o que se disser, são sempre eleitos por quem os contesta.
Dos braços arqueados que labutam na perfurada e putrefacta realidade, sai a conformada derrota nos dias, sai torto o texto, sai mais cedo o do lado, chega tarde o da frente, impune se sente, é o café e o cigarro, o telefone e o cigarro, o café e o telefone, o lanche e o telefone, o almoço que é longo, e a tarde não tanto, o cigarro a meio dela a conversa com o do canto, o telefone pois claro, e o rádio do carro e a gaveta que se fecha e o recado que deixa, amanhã é outra vez e trabalho o que fez??
Deixa lá depois vês.
São tantos os porquês e os sermões no vazio, são mais do que são, não sei se confio, não sei se sou eu, se são os outros ou não, não sei.
Já nem sei bem o que saber, sei que sei que não sei o que vai acontecer.
E gostava de saber, só assim um bocadinho, não muito.
Estou a construir, a tentar, dia após dia, mas vocês não ajudam.
(E aqui começa a carta)
Caríssimo Pedro.
Isto assim não dá.
(Sei que parece demasiado dramático ou até absurdo começar a carta logo a dizer que assim não dá, mas foi para o que me deu)
Tenho 30 anos e fui educado, ensinado e formado sobre os princípios vigentes da educação judaico-cristã.
Andei na catequese durante 11 anos, sim, chumbei no primeiro porque o meu pai tinha um problema de fuso-horário.
Já colecciono alguns sacramentos, não se pense, já lá vão quatro.
Depois fui educado no sentido de ajudar o próximo.
Dar sem esperar receber nada em troca.
De que se deres e trabalhares és recompensado pelo teu esforço, pela tua entrega e dedicação.
Na escola.
Se és bom aluno, os professores gostam de ti, se participas e respondes às perguntas, se vais ao quadro, se te voluntarias corajosamente para ler em voz alta um texto de Cesário, Pessoa, Gil Vicente, Lobo Antunes e tanta outra gente, se fazes os trabalhos de casa, se és Delegado de Turma, passamos por todo um processo de selecção, de teste, de segmentação e categorização individual e tribal.
Depois, escolhemos a licenciatura que queremos tirar, ou arranjamos o emprego que dá para arranjar, segmentamo-nos novamente, na área, mantemos os amigos de infância, alguns, e lá vamos nós por aí fora.
Arranjamos um emprego.
Passamos a adolescência a “cagar d’alto” para os problemas que os nossos adultos vivem e de repente, somos adultos nós mesmos.
Ouvimos e aprendemos o que é descontar para a reforma e de repente, lá se vai o sossego das reformas.
Vemos todos ao nosso redor preocupados, enervados, desconfiados, tristes, resignados, indignados, sem alento e desempregados, tantos.
E pedem-nos paciência.
Espírito de sacrifício.
Uma e outra e outra vez.
Mas depois as coisas sabem-se.
Sabem-se as vossas reformas, as vossas casas, carros, seguranças, posturas que geram desconfiança e para onde vai a esperança?
São dramas reais de pessoas iguais e de outras que tais.
Será isto uma crise de verdade?
Façam as coisas como devem ser feitas.
Façam sem que se levantem suspeitas.
Juntem-se para ver como há pessoas com vidas desfeitas.
Deitem-se tarde.
Acordem cedo.
Passeiem de carro na noite das cidades e vejam com os olhos da verdade o que se passa.
Um colega disse-me ontem, que em 1h30 apanhou 103 pessoas sem bilhete ou passe para viajar num determinado transporte público.
Foi uma pessoa, numa rua… multipliquem isto por… muitos!!!!
Isto não é um sinal de como as coisas estão mal em Portugal?
Ontem tive a oportunidade de ler uma, mais uma carta que lhe escreveram, desta feita foi um profissional que para mim tem na sua imagem e funções a supremacia comunicativa que advém de um saber incomensurável e que na ousadia de não ser mais um lhe escreveu a convidá-lo para um almoço.
O Rodrigo é mordaz, é tenaz, é pai, é defensivo e contra-atacante, é forte e intrigante, mas se há coisa que faz é dizer as coisas, é dar notícias, é sobretudo desconstruir para depois voltar a edificar de forma mais simples.
Não tenho a sua hábil e ardilosa capacidade de argumentar, mas lá chegarei.
Contudo, Pedro, tio Pedro, deixe-me que lhe diga, que o senhor está metido em maus lençóis.
Não são de linho, com certeza, devem ser aqueles lençóis suecos que se encastram nas camas, e que raramente se soltam do colchão, a não ser quando se rompem definitivamente, quando se rasgam.
Aquilo que o “shotôr” e os seus parceiros “shotores” estão a fazer aos portugueses é inacreditável.
O senhor tinha margem.
O senhor tinha o vazio deixado pelo primo Zé, que partiu para a França.
E dele não mais houve sinal, ou mais não se quis que sinal houvesse.
O senhor prometeu! Prometeu!
E depois… Para não variar, não cumpriu.
Sabe o que diz o povo português sobre os políticos?
Que prometem e nunca cumprem.
Sabe o que é não ter amigos poderosos?
Sabe o que é, não ter um único euro em nenhum dos bolsos?
O Rodrigo é simpático e convidou-o para almoçar e melhor ainda, faz questão de pagar.
Eu convidava-o para conversar, somente.
Podia ser no Outjazz da Estrela.
Ou pelas 23h00 no Bairro Alto, no miradouro da Graça, olhe, ao livre, porque a conversa seria para durar.
Gosta de tinto? Douro ou Alentejano? 
Bebe o que eu tiver para lhe oferecer, que eu também passo o tempo a viver de acordo com aquilo que o senhor julga entender. 
Gosto do seu nome, é a sua sorte.
Tem o nome do meu tio e mais do que isso, tem o nome do meu irmão. 
Pedro, lamento informá-lo, mas olhe que as pessoas não gostam de si, e gostavam.
As pessoas queriam dar-lhe beijocas lambusadas e agora não querem senão enchê-lo de bofetadas.
Imagine que tinha de passar os dias a enfardar arroz com feijão, carne dura até mais não, não ter nem para comprar mais pão, não lhe apeteceria esbofetear o “bicho papão” ou neste caso o “bicho Pedrão”?
Pois claro que apeteceria.
E a certa altura começou a espetar com os pés em cocós por todas as ruas onde andava.
Chamou-nos preguiçosos, PIEGAS, disse-nos para emigrar, para procurar-mos soluções, surripiou-nos metade do subsídio de Natal do ano que passou, surripiou-o em definitivo aos funcionários públicos, aumentou o IVA e agora veio com esta trapalhada da TSU.
Já ninguém acredita em si.
É que nem de propósito toda a gente se lembra constantemente da história que se ouvia na infância, daquele magala que passava o tempo a dizer que vinham lá os Lobos, como é que ele se chamava mesmo… ahhhhh.. PEDRO!!!!
Caramba que é azar.
Gosto sempre desta do azar, calha sempre bem neste nosso Portugal.
Bom.
O Pedro deve receber cartas constantemente.
Duvido que as leia a todas e duvido até que venha a ler esta, ou que sequer nos venhamos a encontrar para partilharmos debaixo da noite desta nossa Lisboa, um cálice de um Porto alegremente envelhecido.
Não lhe desejo um pingo de sorte! Desejo apenas que faça o seu trabalho! Se eu não fizer o meu, mandam-me para casa, sem reforma vitalícia, sem pensões, mandam-me sim para casa para lá ficar a coçar os… calções!
Já a vossa classe, se corre mal, vão administrar empresas onde vêem crescer as contas bancárias, depois já podem construir casas maiores, ter carros melhores, imagine-se se fosse assim com toda a demasia populacional.
Faço uma asneirada descomunal numa empresa de pneus, saio de lá e vou administrar uma empresa de cortadores de relva, porquê? Porque sou bom e tenho provas dadas na destruição!
De facto, o sistema político português é visionário.
E deixe que se por acaso alguma vez for despedido, farei como nos aconselhou, verei no desemprego uma oportunidade fiérica para mudar de vida e começar de novo!
Mas lembre-se disto Pedro, DEUS NÃO DORME, descansa e muito, é certo, mas não dorme!
Despeço-me sem palavras ternas ou meigas, sem cumprimentos e cordialidades.
Digo-lhe apenas isto!
Veja se faz por merecer cada voto de cada português incauto que o escolheu para ser “marioneta de fabrico alemão”, porque a paciência da “gente” está a acabar.
“Zé, quem te avisa teu amigo é!”

Martim Mariano

E assim me dirigi ao tio Pedro.
Agora é esperar que ele responda.
Mas sem palavras, porque essas… Leva-as o vento, não é?
É maior o tormento da indiferença, do que a insurreição de quem não mais teme a parecença com países que não o nosso.
O rastilho anda solto e o mar mais do que revolto.
Melhores dias hão-de chegar, todos temos de fazer a nossa arte!
 
 

 


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