O QUE FOI?

E o que dizer da expressão, “Ele olha para mim como quem olha para um chupa-chupa.”?
Pouco ou nada.
Ocorreu-me, sei lá. Acabei de a ouvir na televisão e pareceu-me tão estupidamente parva que pensei que podia perfeitamente ter sido proferida pela minha boca.
Mas o que foi, foi que… Bem.
Vive-se na certeza de que temos a certeza que tudo sabemos, que tudo conhecemos, que sabemos o que queremos, quem somos, o que somos, como somos. para onde vamos, com quem estamos.
No entanto, alturas há nesta “coisa” de viver, em que tudo se revira e revolta, se modifica e transforma, se constrói e destrói, se mata e se morre, se absolve e se julga, se odeia e se esquece, se apaixona e se ama, se nasce e renasce
Somos a mais pura das matérias, a prova mais fiel em como o ser humano armazena, guarda, lembra e relembra, mas vive, renova, regenera, recupera, fortalece, cai, levanta-se, tropeça, segura-se, sobe e pendura-se, de pé novamente, ou sentado de frente, não dá para não tentar, não dá para não querer, não dá. Ponto.
E disto ninguém fala.
Como?
Como é que somos isto? 
Como é que somos capazes de fazer isto?
De ser isto.
Diz a Bíblia, que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança.
Pronto, está bem, há vários Deuses, aceito e também aceito que nem todos podem ser lindos… como eu… mas a vida continua. Sem medos que prá frente é que é Lisboa, ‘na é?
Diz que sim.
Mas dizia eu que segundo professa a fé cristã, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, porquê?
Porque raio de coisa é que ele havia de se lembrar de fazer uma coisa dessas? Hum?
Ai, Eu sou Deus, então o que é que eu vou fazer hoje que já estou aqui um bocado de cansado de brincar com as nuvens e de mandar os dinossauros matarem-se uns aos outros, o que é que eu posso inventar para me entreter?
Ando aí com umas ideias…
E se Eu inventasse um Homem? Epá isso é que era, já ando a pensar nisso há algum tempo.
É assim um animal e tal, mas é diferente, anda só com 2 patas, ou seja, anda. E depois faz uma coisa fenomenal, fala, fala mesmo de verdade, usa a boca para falar e o cérebro para pensar, uma coisa notável. Mas já me disseram que tenho de escolher bem, porque este é o primeiro homem, e depois os outros todos vão descender deste, e não sei o quê e não quero saber, mas afinal quem é que é Deus aqui hã?
Por isso assim fez, criou o ser humano à Sua imagem e semelhança e… deu no que deu.
Deu em coisas muito boas e em coisas muito más, mas sobretudo, deu!
Hoje somos, humanos, somos muitos, somos humanos pra caraças, mas felizmente somos tão diferentes e atravessamos a terra em períodos e formas, e contextos, histórias, momentos tão distintos.
Tenho para mim que de há uns meses para cá se apoderou de mim uma espécie de honestidade absoluta que por vezes pode chegar a roçar a estupidez, no entanto, a vida tem-me levado a ser assim, a viver assim.
No entanto, nos últimos dias ando a ser assolado por uma questão que tem tanto de pertinente, como de pessoal e irrespondível, o que são verdadeiramente a lógica e a razão? Quem decide o que é lógico e o que é racional?
Quem lhes conferiu tamanho poder sobre a liberdade do próximo.
Disse Sarte que “Estou condenado a ser livre. Isso quer dizer que nenhum limite à minha liberdade pode ser estabelecido, com excepção da própria liberdade”, e não é isso mesmo?
Porque diabo é que tenho que responder perante terceiros sobre realidades que somente a mim me dizem respeito? Quem trago eu dentro do peito? Trago quem quero e como quero, O que foi? Estou a incomodar sua excelência? Então vá bardamerda pá, vão todos bardamerda, que era só o que mais me faltava, queres ver? Estava bonito, estava.
Quem se acha no direito de convencionar o que é certo ou não fazer, de julgar, de opinar sem ser questionado, não sabe por certo o quão errado está, quão triste tem de ser a sua vida para dedicar tanta atenção ao que demais em seu redor, ou no redor do seu redor se passa, deixe-se estar, mais cedo ou mais tarde acabará por cair em desgraça, mas olhe, isso passa.
O homem é livre. O que foi agora?
Não posso dizer isto também?
Sim, somos assalariados, e fiéis pagadores de contas de gás, luz, água, telefone, internet, televisão por cabo, gasolina, afins e outros tantos pudins, mas somos livres, até.
Tirem-me a liberdade de pensamento e de expressão e tiram-me da boca o pão.
Diz Kant que:
“As nossas obrigações morais podem ser resultantes do imperativo categórico”. Com toda a certeza. Somos “obrigados” à obrigação moral, à mão que nos serve, sempre e na maioria dos contextos é um imperativo silencioso, que ao primeiro grito rompe os tímpanos.
A liberdade é grito, é fúria, é vida, é força, é maturidade, determinação, coragem, risco, muito risco, decisão, sobretudo poder de decisão, poder para decidir.

“(…) A Liberdade tem cheiro.
A liberdade tem o cheiro do cheiro que quero que tenha.
A liberdade tem sabor.
A liberdade sabe a tudo aquilo que quero que ela saiba, e mesmo ao que não quero também.
É morango, ananás, e que bem que ela faz, são abraços e beijos, vinhos tintos e queijos, sal e pimenta, a cebola, que é nojenta, e essa liberdade não se aguenta…
Sabe ao sabor do vento, ao refinar do pensamento, à tristeza do lamento, ao “chega que já não aguento”.
Mas sabe também à frescura do mar, à ternura de um olhar, ao ingénuo arrepiar, sentes a minha mão a transpirar? É disto que estou a falar.” in Que bem que cheiras tu Liberdade!”
É. Pois é. E é mesmo.
Na certeza de quem sou reside o que quero fazer, ou melhor, da certeza do que quero reside o que vou fazendo e reside ainda a natureza do que vou vivendo, ou me vou permitindo viver.
E o que chateia na verdade é que limitamos a liberdade uns aos outros. Constantemente… Deliberadamente e mais do que tudo, estupidamente
O homem gosta de controlar. É ponto assente, sistema vigente, para muitos é até indiferente, mas verdade seja dita que não deixa de ser indecente.
E queres, queres, tens vontade, exiges, demandas, pretendes, lutas, berras, gritas, pedes e por vezes consegues.
Tentas, alcanças, sorris e danças, não medes os palmos que sobram entre a franja e as tranças e por fim… em casa, na tua, só tua… descansas.
O Que foi?
Não sei bem, pelos meus pensamentos nem um vintém, nem tão pouco a moeda suja e gasta que a minha mãe nem sabe que tem.
Vou para onde quiser.
Ter com quem me quer.
E o que foi?
Não volta a ser, mesmo que muito se queira e continuando nos Xutos, vou viver a vida, à minha maneira!
E dirá tudo isto tão mais do que se quer dizer na verdade.
Será tudo isto mais importante do que a importância que dou às vidas dos outros, que deles faço eu pouco, quanto ao tanto que de mim deixo.
Escorre-me a baba pelo queixo, sou crescido e não me desleixo.
Mas sofro quando te vejo sofrer.
Dói-me a tua agonia, dói-me não ter magia para te abrilhantar de novo o dia.
O que foi?
Foi que sou um comum e atabalhoado, um desastrado mortal, de vida normal, cara banal e cabeça que bate mal.
Quanto a ti?
Pouco mais há a dizer.
És um anormal com uma vida que não corre assim tão mal…
De que te queixas meu animal?
De nada Senhor…
Se sou parecido com Deus, não me queixo nem a Si nem aos seus.
Antes caminho com os ateus que de Si falam mal, que a si o recusam, calado sigo o meu caminho, observo e falo baixinho, não vá cair-me um igual ao caminho, deixando-me a falar sozinho, à procura.
Não há nada sol de pouca dura, nem maleita que se cura com a fúria de viver.
É tudo um aprender, um sorrir e não perceber, falar e não dizer, e tudo é um todo que está a acontecer.
Se não é já foi, se não foi vai ser.
Não interessa perceber.
Interessa sim seguir e viver, umas vezes a andar outras vezes a correr.
E olhar para ti como se olha para um chupa-chupa?
Que me dizes tu?
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