Tira os pés do chão

Quietude incontinente que açambarca a vida da gente, em movimentos imperfeitos de tão belos que se apresentam aos olhos do homem.

Para que se sinta, é necessário querer, é necessário que se possa, acima de tudo, que o corpo queira e a mente arrisque a exposição desmedida, a revelação das fraquezas, tremores, suores e odores, cócegas, encantos e desamores, defeitos e pudores.
A vida mostra de que é feita e mostra-te o que tens de fazer.
São imagens, são.
Nítidas ou desfocadas, alegremente misturadas em salganhadas sensitivas de seres sofridos, amados, rejeitados, perdidos e desencontrados, que nos braços gelados de amores subitamente descobertos, confundem e trazem a dispersão da convicção prévia à sensação.
Quão difícil é por vezes querer tirar os pés do chão.
O querer assume por vezes contornos de dificuldade absurdos, de super proteccionismo do ser, de tentativa forçada de fuga ao inevitável.
E o que é o inevitável? 
O alcance da sensação mais pura da vivência entre seres humanos.
O Eu QUERO.
Quem ouse recriminar tal coisa, será por certo alvo de um atroz desenrolar de uma vida frívola, perdida nas margens do esquecimento da sensação física e da memória do que é o AMOR.
Quem não sabe é como quem não vê e pior do que não ver.. é não querer ver.
Aqui tenho de contraria claramente Caeiro, quando afirmou que pensar é estar doente dos olhos, para se querer é preciso conhecer o objecto do desejo, identificá-lo, senti-lo como parte de nós, desejando que essa mesma fusão seja o expoente máximo de uma vontade acicatada por olhares de ternura, sorrisos meigos e cúmplices, palavras que se colam às paredes como se de barro se tratassem, que se moldam e gravam, que não magoam nem estragam, que produzem efeito no efeito enfeitado do sentimento alcançado, não será nisso que se deve pensar, quando se sente o leve beijo da paixão iminente?
Diga quem sabe o que no momento se sente.
Fale quem conhece, o que de mais acontece, quando de Amor assim se padece, só o tem quem merece, já dizia o padre na sua prece.
E o país? Vai mudar? 
Se for a coisa que eu penso…
Não há vertigem maior que a de sofrer.
Não há loucura maior que a de amar.
Não creias que chegas sempre onde queres chegar,
Sem que para isso tenhas ao menos de sangrar.
Corres as ruas e vês o povo a sofrer,
Olhas de esguelha o pedinte que te fita a gemer,
Nas lojas não há mais quem consiga vender
E no pão, nada vês senão a côdea.
E quando arriscas na pobreza, safas-te com a esperteza,
Quando roubas para por no pão,
És corrido ao pontapé e ao estaladão
Não era um direito consagrado na “nossa” constituição?
Essa devia consagrar o direito à felicidade.
Quem é feliz produz mais.
Gosta mais de trabalhar.
De viver.
Traz bom ambiente ao local de trabalho.
Estão a ouvir senhores das decisões, dos contratos de milhões, dos subsídios e das viagens em aviões, do estado da Nação, do Estado e da Nação?
E dos cheiros vive parte do pensamento.
O cheiro que bem cheira, cheira tanto que quase não há mais odor, que quando deixa de cheirar o pensamento conhece de novo a dor.
É um cheiro que se cheira sem querer, é o cheiro que cheira e te faz parar o correr.
Poucas coisas cheiram tão bem assim.
A mulher consegue misturar O cheiro dos cheiros com o cheiro a que cheira. Mas só Aquela mulher.
Os olhos não têm fundo, têm palavras.
Os teus olhos falam, acredita que falam, gritam, sussurram, suspiram, choram e sorriem e ainda contam segredos de fim de tarde.
Os tempos são tristes. Carregados. Pesados, como diz o meu irmão.
E no meio de tanta tristeza, há quem sorria e faça sorrir, para esses estará algo de bom para vir?
Para realçar o sabor de viver, acrescentam-se pitadas de momentos soltos, livres, de onde se retiram purificações de estados de alma, em pequenas histórias de valor acrescentado que aos olhos desatentos da frustração redundam em estupidez.
Não tem importância alguma, continuarei a sorrir de manhã à noite.
Salada de maturidade regada por um Quinta da Confiança à Lapa de 1983, acompanha uma guarnição de determinação e convicção no olhar, seguida de um soufflé de gestos certos nos momentos certos.
À sobremesa, um tarte de segurança e responsabilidade, com molho de consciência e coragem nas palavras.
Receitas? Não. 
São simples pratos, reza para que um dia tenhas a manifesta felicidade de apreciar uma sensação de requinte desta natureza.
Mas não esperes.
Saberás quando a tiveres na frente, a sensação de requinte, claro está. ‘Acaso terias outra coisa em mente?
Não é assim tão indiferente, mas, em frente…
Os passeios a pé nas noites de primavera são monólogos pedestres de elevado interesse artístico.
Pensa-se, observa-se, questiona-se, conclui-se, define-se, altera-se, pergunta-se, paras e recomeças, dás a volta, mãos nos bolsos, das calças, do casaco, com ou sem luvas, com ou sem frio, chove, adiantas o passo, ou não, cigarro na mão, trauteias uma canção, sorris, um bafo, sorris de novo, cá para fora, suspiras, avanças.
Do alto da rua observas o mundo a teus pés.
Analogias de prepotência disfarçada, ou simples estratégias de motivação? 
É qualquer coisa e ajuda, se ajuda… sentes-te capaz, não és mais um rapaz, vais, cresces, arriscas, petiscas, comes e bebes, tu és capaz e na verdade consegues, mereces, lutaste, tentaste, arriscaste, sangraste e não limpaste, continuaste e conseguiste, agora desce e vai para casa que está um barbeiro que não se pode, ’tás parvo ou quê? Tens com cada uma… ‘tas a olhar lá para baixo há 10 minutos, vais descer a rua à cambalhota? Qu’idiota.
O Amor é uma espécie de matrioska, com um número indefinido de “filhotes” lá dentro para cada um de nós.
Cada ser humano tem guardada algures a matrioska da sua própria vida amorosa.
A quem já tem a sua, segure-a, a quem a encontrou, viva-a, a quem ainda ouve chucalhar dentro da gorda, paciência, melhores dias virão com certeza, ou então, simplesmente um dia deixa de chucalhar, de procurar.
E há dias que mais parecem viagens no espaço e no tempo, tudo pára, tudo aquece e gela e torna a aquecer e tu sem perceber o que raio se está a passar, e quando percebes sorris e não queres ver a realidade, o tempo dá e tira e volta a dar, vive o que interessa, espera pelo que há-de te calhar, procura, não forces, respeita-te e respeita, torna-te responsável pela tua própria felicidade, escreve a tua própria “constituição”, legisla os parâmetros do que queres viver, porque PODES, efectivamente podes e deves fazê-lo! 
Vive caramba, vive!

Estás à espera de quê?
Da barriga e das férias na 1ª de Agosto, na mesma casa alugada dos últimos 20 anos? Dos programas de final de noite? Minha grandessíssima besta, tens vida que é coisa que muitos gostariam de ter, e deitas a tua para dentro do cesto da roupa suja todos os dias, estafermo.
Não mereces o ar que respiras, metes-me nojo.
Vives a vida de rojo.
No cambalear da embriaguez da paixão vive a alimentação do coração e a ração da alma.
Não tenhas pressa, não tenhas medo, tem calma.

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