Nos olhos de Madalena

Nos andares do pensamento vive o tormento do tentar.
Nas noites de esquecimento chega ver-se no seu olhar.
E só quem sabe o que é ter medo, sabe onde eu quero chegar,
Não é triste o meu pensar, é a dor de não falar.
Escrevo com letras as palavras que penso querer dizer, e acabo por lê-las uma e outra vez sem sequer perceber o que está com elas a acontecer.
Rasgo uma e outra folha.
Mentira.
Não se rasgam folhas a escrever num computador, faz-se delete e retrocede-se com a merda das setinhas…
Há dias em que as setinhas se desorganizam e as palavras se empurram para cima umas das outras e ao encavalitarem-se produzem cacafonias literais de pura violência, de confusão, afinal, como podemos nós ter a pretensão de pensar, que as letras nas palavras não se indignam quando dão origem a uma em detrimento de uma outra!?
As palavras não são estáticas, são móveis, não de pinho, mas de veludo.
A estranheza será tão maior quanto maior for o numero de palavras caminhantes empregues no decorrer de uma conversação, declaração, afirmação, exclamação, indignação e como se diz em espanhol, A lo mejor, é a total confusão.
Gira e volta a girar o carrocel efervescente das ideias de gente e volta a subir pela escada, com a alma já pesada e a vida já tombada, a fiel empregada da família Vasconcellos.
65 anos, a servir desde os 14.
Veio para “a cidade” sozinha, foi posta pela tia no autocarro, que a mãe estava também ela a servir mas numa embaixada na Lapa.
9 horas de viagem e um pão com manteiga depois, chegou finalmente a Lisboa. 
Qual pardal curioso logo se pôs a andar e a perguntar onde poderia a mãe encontrar. Da lapa nunca ouvira falar, da Infante Santo muito menos, da Basílica da Estrela havia ouvido uns senhores falarem de missas na rádio, e sabia que “é assim muito grande e bonita, é a modos que como a paróquia da minha aldeia, mas em muito grande!”.
Não sabia muito bem o que fazer com as palavras, quanto mais pensar na complexa complexidade que reside na criação das mesmas palavras.
Há um jogo curioso de palavras que se chama Scrable, que consiste em formar palavras partindo de letras que temos ao dispor, letras essas que se encontram despidas e envergonhadas, esperando ansiosamente poder passar despercebidas, quando finalmente combinadas para formar uma qualquer coisa, que tão pouco lhes interessa.
Ora Madalena pouco percebia de palavras. 
Vinha para Lisboa para fazer camas, passar a ferro, pôr a mesa, levantá-la, limpar o pó, dos livros, com letras, tantas, montes delas.
Madalena não tinhas livros em casa, ou os que tinha, estavam em muito mau sítio, em muito mau estado.
Da escola saiu quando tinha apenas 10 anos, com a 4ª classe. Deu-lhe para aprender a escrever o nome, a fazer contas, o alfabeto, a tabuada, e, e mais nada. Ficou por ali. Também aprendeu o que são seres vivos, animais, plantas, insectos, bla, bla, bla.
No entanto.a
Sempre gostou muito de livros.
Em casa dos Vasconcellos, a parte preferida da sua semana era o momento solene de limpeza da biblioteca.
E não era de todo uma biblioteca qualquer, onde se amontoam livros em prateleiras impessoais, fazendo vizinhos à força pessoas que nunca na vida poderiam sequer tolerar ser vistos juntos, quanto mais partilhar obra numa prateleira.
Era uma espécie de tempo literário, criteriosamente organizado e catalogado na correcta corrente em que cada um se refere, separados por nacionais e internacionais, com prateleiras específicas para autores específicos.
Madalena, depressa se afeiçoou às lombadas, às capas, contracapas, badanas, edições, correcções, ensaios e romances prosaicos.
No entanto, nunca leu sequer uma frase de livro algum.
Dos 14 aos 18, foi povoando a imaginação com a curiosidade, cada vez mais perpetuada na impaciência com que anseia as sextas-feiras. 
Um dia deixou cair um livro do alto de uma prateleira situada ao nível de um 1º andar de um prédio de Lisboa, e ficou para morrer.
Chorou durante toda uma semana pelos cantos. Pobre Madalena, não tem mal pequena, disse-lhe o Drº Vasco em Roupão de Inverno, pijamas e chinelos, é só um livro.
E ela, muito indignada respondeu-lhe:
– Não schenhor dotôr, cada livro é um livro diferente, ninguém sabe a dor que sente o livro, por passar a vida fechado e esmagado contra outros tantos. Como pude eu castigá-lo desta forma, dando-lhe a esperança de ser folheado e escutado por alguém  e depois espeto com ele no chão… Despeça-me se quiser shôtor, que eu não merecho trabalhar aqui.
– Ó Madalena, p’amor de Deus, mas acha que eu a vou despedir por tão pouco, ó messa.
E esta foi para Madalena uma experiência traumática com a Leitura, com as palavras, com as letras.
Irritava-se com o facto de não conseguir de deixar de quase sibilar quando falava, por isso falava pouco. Queria ler depressa e estava sempre a parar na letra que não conseguia juntar à outra, nas duplas consoantes, nas duplas vogais, perdia a paciência e cansava-se muito a fazê-lo.
Por isso, certo dia, desistiu.
No dia que se seguiu ao dia em que Madalena desistiu, Madalena transpirou, tremeu e suspirou.
Sentiu calores onde nunca os tinha, apercebeu-se que recebia no cérebro mensagens de músculos e tendões do corpo que desconhecia sequer que existiam, corou, sorriu, baixou os olhos, pensou que ia morrer.
Foi no mercado da fruta.
Foi buscar Morangos, Bananas, Laranjas, Limões, 1 Ananás, e cerejas, e na espera desassossegada na fila da banca onde comprava a fruta, conheceu-o.
Ele estava apreensivo, olhava, mas nada via, trauteava palavras engalfinhadas em desalinho, socorria-se dos olhos para encontrar novamente o caminho, e deu por si perdido dos olhos e encontrado no cheiro dos cabelos de Madalena.
Parou, voltou, sorriu, limpou as mãos transpiradas às calças e estendeu amavelmente a mão na sua direcção.
– Bom dia. 
– Ela estendeu a mão de volta ainda sem olhar bem, mas parou a mão do caminho quando o olhou nos olhos. Tinha verde na cor dos olhos, falava com letras e letras aos molhos.
– Olá Madalena.
Como sabia ele o seu nome? Teria seguido o seu caminho? Pode sempre ser seu vizinho.
Sacos de plástico para um lado, moedas e notas para o outro, soltam-se palavras entre contas e pesam-se bananas e morangos entre perguntas pelos meninos e pelos patrões.
Adeus menina Madalena, diz a Rosa Maria.
Ele ali está, encostado à florista. Abismado. Encantado. Ela é simplesmente, deliciosa.
Cabelos soltos deixando ver o pescoço, olhos verdes de um mar inatingível e de uma sinceridade surpreendente e nos lábios o sorriso de Deus.
Ela pára e ele fala-lhe, de livro na mão esquerda.
E ela fica aqui, no livro.
Ele continua a trautear os aglomerados cacafónicos que para ela não são mais do que isso mesmo, enquanto ela fixo os olhos que mais parecem dois Kiwis cortados pela metade, sumarentos, sequiosos, sedentos de curiosidade.
Ele repara que os olhos dela estão bem mais longe do que julgava e repara, tal não é a discrição de Madalena, que ela segue lentamente o livro com os olhos como um animal segue um pedaço de comida.
Decide divertir-se com o inusitado interesse de Madalena no livro que mantém ainda firme na mão esquerda, lentamente faz subir a mão até ao queixo e observa aquela cabecinha a girar até marcar novamente o encontro que desejava com os Kiwis, com os olhos.
Param.
Ele pergunta-lhe o que tem o livro de especial?
Letras diz ela, tantas, em tantas formas diferentes…
Queres que te leia algumas perguntou, e ela sorriu.
E aqui o romantismo de todo o cenário que para trás ficou, leva-nos a pensar que realmente ele lhe contou uma história, leu, ensinou-a a ler, e um dia casaram-se e foram felizes para sempre, e tiveram um exército de filhos a correr pela casa e a desenhar hipopótamos nas paredes da sala com cera de velas, as vermelhas do natal.
Ou então.
A mente de cada um permitirá criar todo um desenlace deste clímax na história.
Quanto a mim, ele não diz absolutamente nada do que no livro está escrito.
Disfarça o nervosismo que a responsabilidade do momento transporta. 
Afinal, está perante uma linda, maravilhosa, deliciosa, pura e casta Deusa e isso provoca-lhe um quase colapso nervoso. Ao fingir que está a ler, tem na verdade tempo para construir um enredo de continuidade que obrigue a que tenham de começar a encontrar-se novamente, às escondidas, nos “retiros” que a profissão permite que tenha, nas deslocações quase diárias à mercearia, ao mercado, aos correios.
Aos comentários das vizinhas, das outras empregadas internas de outras famílias abastadas, envoltas em reboliços e cegadas, tramóias orquestradas, suspeitas bem fundadas.
Não havia amor serviçal que não terminasse ora a bem ora a mal.
E Madalena? Que fez ela afinal?
Escutou atenta as palavras que queria.
Sonhou, sentiu e viveu-o de novo no nascer de mais outro dia.
Sabia de cor que não ouvia as palavras escritas.
Mas escutava apaixonada o amor nas leituras bem ditas!
Não dormia, pensava em dizer tudo o que sentia. Pensava nele a todas as horas do dia, pensava em amor fora da mercearia.
Mas afinal que amor era esse que Madalena perseguia?
Calmo, louco, esforçado, encantado, dedicado, lendo e recitando o que foi toda a noite ensaiado, pobre coitado.
Esperas um beijo que seja e não há beijo que se veja.
E o dia demora mas acaba por chegar, ela beija-o uma e outra vez e o saco da fruta ao lado a esperar.
E sentados num banco lá vão dando descanso merecido ao amor, é de letras que se fala quando histórias se contam no coração do escritor.
E a mãe que ela começou por procurar?
Faltou-me dizer que o embaixador para o qual a mãe estava interna a trabalhar, era o pai do rapaz que Madalena estava a namorar.
E dizem que o amor não se diverte quando anda connosco a brincar.
Pois não.
Basta vê-lo a dançar!
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