Deus nem sempre é tão amigo assim

Boa noite senhor Deus.    
Na verdade, não faço a mais rotunda ideia do que Lhe passará pela cabeça, ou melhor, reconheço que seja difícil manter um elevado nível de concentração para alguém que é TUDO, para alguém que tem no pensamento uma fita de todos os pensares e pensadores do universo.
Ser TUDO e estar em TODO O LADO, não pode ser pêra doce (e o quanto eu queria utilizar esta mui nobre e popular expressão portuguesa).
Ser Deus trará logo à partida um contrato, todo ele escrito em letras muito, muito pequeninas, e só em páginas deve ter toda uma floresta amazónica.
No entanto, o Rapaz sabia ao que ia, com certeza que ninguém pensa que Ele chega a Deus assim como quem dá cá aquela palha.
Se assim fosse, qualquer um era Deus, e isso não dá bom resultado, basta ver como está a Grécia.
E ainda dizemos nós que isto aqui está mal, mas nós ao menos a quem reportar, seja em que situação for, eles, pobres coitados, para cada mal têm um Deus diferente, mais se parece com o El Corte Inglés do que com qualquer outra coisa. 
Estou bêbado que nem um cacho, vai, chama o do Vinho, sofri um desgosto de amor, chama a da especialidade, ai que vamos ter problemas com toda a gente que está à nossa volta, é turcos, gregos, cipriotas, albaneses, macedónios, búlgaros, líbios (de barco sempre em frente), egípcios (também de barco, sempre a descer), italianos (só para chatear, também de barco, mas para cima e para a esquerda, mas é pertinho), toda uma variedade de gente que gosta deles como o diabo da cruz.
Ainda nos queixamos nós.
Sim, temos os espanhóis, eu sei, e os marroquinos, e o Alberto João, mas seria bem pior ser grego, digo eu, em grego e baixinho…
Ora, os deuses daquela gente nunca se cansam, e isso coloca todos os restantes professantes de uma religião monoteísta numa abjecta e suposta desvantagem… vantajosa.
Ora o que se passa é, nós, filhos de um Deus maior, mais vasto e utilizando um termo que habilmente subtraio à Alexandra Solnado, o nosso Deus tem bem mais do que 2 km, tenha paciência.
Às vezes dá a sensação que Deus abandonou este mundo há muito, muito tempo atrás, que pura e simplesmente fez a trouxa, desamarrou o burro e pôs-se a… não sei bem como é que Ele se faz transportar, deve ter um Deus mobile, ou anda em cima das nuvens, ou então, não faz nenhuma das duas… Pura e simplesmente tele-transporta-se para onde precisa de estar.
Passeio de mansinho pelas ruas cheias de sol e de uma luminosidade apaixonante, é Lisboa, é assim, é sempre assim quando está sol em Lisboa, e tem estado tanto.
Por estes dias, cheira já ao fim do Inverno e as árvores voltam a cochichar de uma ponta para outra no jardim da Estrela.
Da chuva falou-se hoje.
Por estes dias Portugal parece viver sobre uma espécie de nuvem, assente num gás levitante que o suspende de tudo o que são mudanças, exigências, medidas, transformações, alterações estratégicas, contribuições, aumentos, cortes, costuras, remendos.
No entanto há sempre brilho em Lisboa, há sempre sol na Madragoa, e aquela gaivota que voa, tão perto, tão baixo, junto ao chão onde chora o menino que a mãe assoa com Amor.
São três horas e mais metade, assim diz o relógio já exausto na Avenida da Liberdade, desce e chega-se ao Rossio, já cheira, já brilha, já bate, lá em baixo, a Lisboa do seu rio.
As terças, com roupa de sábado, são o fim-de-semana na bagunça dos dias dos outros.
É o melhor dos dias, o sábado, com sol, em Lisboa e sem sono.
Ando, subo, desço, mãos nos bolsos, casaco apertado, passo encantado e sinto-me no caminhar vagaroso da minha gestão temporal.
Esfrego as mãos, sopro-lhes para ver se aquecem, estás fria Lisboa, e sozinha, deixaram-te ao abandono porque não estás nem nunca estiveste para grandes Carnavais.
Se há coisa que aprecio em ti é a tua sinceridade, és o que és, és o que mostras, dás o que tens (a mais também não és obrigada, diga-se de passagem), encantas os que te olham e deixas saudade nos que te viram as costas.
Mas não fugindo do que aqui me trouxe.
Deus.
Nem sempre És tão amigo assim.
Nem sempre Estás onde dizem que Estás, Vais onde dizem que Foste, Fazes o que dizem que Fizeste, Salvas como dizem que Salvaste.
Nesses momentos todos, em que sofro e vejo sofrer, em que morro e vejo aos outros a alma a desaparecer, onde estás Tu?
Onde te escondes?
Já sei. Vais dizer que Tens muita coisa para fazer, muita coisa na cabeça e passas os dias preocupado, assustado, alarmado, sem tempo sequer para dormir, ou descansar!
E eu digo desde já, que isso é mentira!
Não sei se Te tiraram ou não os subsídios, se estás no fundo de desemprego, se estás desempregado, mas há pouco tempo…
Pessoalmente acho que será este o caso.
Deus = Desempregado de curta duração!
Ora então, temos de aprimorar esses CV’s, para ver se Te arranjamos qualquer coisa, nem que seja um part-time mixuruca, só para não estares tanto tempo sem fazer nada, que isso não é vida para ninguém, e “fachavor” vamos a ser proactivos, que nos dias de hoje se não Fores empreendorista, não te safas.
Ora, posto isto, pode até manter-se a tese de que Deus é omipotente, omnipresente, omni sei lá mais o quê, mas de certo que nem sempre é tão amigo assim de todos nós.
E falha muitas vezes, ou melhor não falha, simplesmente não aparece, esconde-se atrás das nuvens, que com aquele tamanhão todo é impossível desaparecer-se assim.
Assim, e continuando o périplo, apenas me apraz dizer que, apesar de continuarmos a utilizar constantemente, o “Deus nos guarde; Deus nos acuda; Por amor de Deus; Ai Deus seja louvado; Com a graça de Deus; Até amanhã, se Deus quiser; O futuro a Deus pertence…”
Ele tem tantas vezes bem mais que fazer.
Provavelmente andará em torneios de futebol com os deuses gregos, que também devem andar bem longe daquelas paragens.
Sou egoísta e quero um Deus que me ajude?
E depois?
Que mal tem isso?
Vem ao mundo alguma epidemia? Agrava-se a crise? Baixa o rating da minha dívida?
Que nada!
“Continuarão a existir noites de lua cheia, a serra de Sintra e o Tejo vai continuar a correr para o mar!”
No fundo não faço mais que todos os outros e faço seguramente mais do que quem nada faz.
Falo, queixo-me, peço, exijo, reclamo, mas sigo para casa, todos os dias pela mesma estrada, e porquê?
É mais perto.
É mais rápido.
E não é assim em tudo na nossa vida?
Acho que quero gostar de pensar, que há superioridade na parte desta entidade superior a tudo o que é mundano.
Mas se vivo em Portugal, numa democracia exemplar, porque não posso exercer os meus direitos e bramir veementemente argumentos contra um Deus que parece mais não ser do que um Deus das pequenas coisas… e as outras?
E o teu filho?
Está bonito isto, ai está, está.
Está de greve?
Está de baixa?
Trabalha na CP?
Já percebi… Deixa, já vi tudo!
É jovem, está desempregado, e não sabe sequer se passa dos 33…
Diz-Lhe que tenha cuidado com as companhias.
Atenciosamente,
Martim Mariano
Ai Lisboa, vês ao que tenho de me sujeitar?
Já tu, a ti, nada te parece incomodar.
Estás meio mosca morta, meio adormecida…
Acorda que isso que vives não é vida, é passeio!

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