Invulgar.. vulgaridade

Transpiras que nem uma maratonista, cheiras a doce e a cansaço ao mesmo tempo, emanas por ti acima um odor forte e activo, teu, até assim cheiras bem, ou mesmo que por ti abaixo escorram gotículas perversas de uma humanidade tão real, não chegas nunca a estar suja, assim te vejo no jardim do meu pensar.
Tens as maçãs do rosto rosadas do esforço que acabaste de fazer.
As mãos, poisadas esforçadamente em cima dos joelhos, ajudam o teu corpo a não se desmanchar num amontoado de peças de um puzzle desfigurado!
E gosto tanto de ti assim. Cansada e acabada de correr.
E quando acordas despenteada, com o cabelo levantado de um lado, os olhos quase colados e ainda adormecidos da violência do regresso ao mundo real e não deixas de ser a mais bela mulher que a eternidade alguma vez conseguiu enviar à Terra.
Mesmo na vulgaridade do quotidiano tens a invulgar autenticidade que faz de ti um ser único.
E por ser assim é que sei.
Tenho a nítida sensação de que na verdade todos somos invulgares até na vulgaridade, todos somos geniais dentro da estupidez, todos somos capazes de ser admirados mesmo quando erramos e nos espetamos e espalhamos, com as mãos atrás das costas e com força suficiente para partir um dente ou dois, ou abrir a cabeça que também uma coisa bonita de se ver.
Dizia que tenho a nítida sensação de que o ser humano, na sua especial capacidade de lixar tudo o que de bonito e belo está à sua volta consegue surpreender o seu semelhante a cada nova acção que desencadeia, seja qual for a natureza da mesma.
Esta imprevisibilidade própria da descoberta e do risco, faz com que nos admiremos, espantemos, choquemos, amemos, odiemos, e nos lembremos de cada um daqueles que nos tocam por motivos tão inacreditavelmente diferentes.
Quanto mais tiras ao outro para guardares para ti, maior é a lembrança futura que terás do que viveste com ele. 
Tiras o que gostas, o que não gostas, o que queres e o que não queres. Quantas e tantas vezes tiras sem saber que o estás propriamente a fazer.
Tantas.
Quantas vezes tiraste sabendo que estavas a armazenar para um dia lá voltar?
Pensaste que se o dia chegasse e não te soubesses lembrar, isso sim era triste e isso não, não podias tolerar.
E é assim que fazes.
Vives, aproveitas, acordas e deitas, guardas, tiras, dás, dás mais do que tiras, deitas e viras e quem dá vai e tira e assim fazes.
E um dia dás por ti a recordar aqui e ali, como e onde, quando e porquê, com quem e em quê, mais tudo o que por lá se vê.
E no meio de tudo o que lembras e os sorrisos que saem e as lágrimas que caem, contas horas já contadas de vidas já passadas e de sonhos lá vividos. E como é bom ter memória.
Se não é de memória que fazemos a nossa vida, a nossa profissão, o nosso pensar e querer, amar e viver, então de que é?
Somos a matéria viva e expressa do sentimento que nos atravessa.
Caminhamos rumo a algo e vamos progredindo com base na segurança que nos traz o passado que para trás fica, construímos a vida pela vida fora e o que para trás fica, tantas vezes nos acompanha, mesmo quando se vai embora.
Somos únicos e encantadoramente singulares, numa proporção que só nós mesmos podemos e devemos ter.
Devemos ser os maiores conhecedores das nossas vulgares invulgaridades, e sobretudo da nossa vulgaridade invulgar, essa sim, verdadeira mensageira da autenticidade e genialidade do ser.
Considera, relembra, guarda, mantém, fala, escreve, liga, diz, conta, deixa ir, cala-te, escuta, desaparece e aparece quando a espera menos espera.
Mas sobretudo faz um compromisso com a lembrança e não te deixes esquecer.
Faz por não seres esquecido.
Torna-te tantas vezes lembrado, quão aberto for o sorriso.
E tu, tu podes continuar despenteada, transpirada e desmaquilhada, que na vida nunca haverá nada que supere a força e a beleza de uns olhos que querem ver a vida não vivida.
Não é pois de miopia que se trata.
Mas sim do quanto se dá e quanto se gasta.
Quantas vezes conseguem os olhos olhar daquela forma tão… única?
Quantas?
Os olhos cansam-se de olhar? Ou cansam-se de tentar?
É possível que alguém se canse? Ou que deixe de tentar, de procurar, de encontrar, de acertar e falhar, haverá algum dia em que se diga, chega!?
O cérebro não chega a todo o lado, ou pelo menos não temos consciência de até onde é que ele consegue alcançar, logo não temos a percepção do que lhe pode escapar, e pode acontecer que lhe escape, o pobre coitado tem tanto em que pensar.
É por isso mesmo que cada vez mais, conta mais contigo, confia mais em ti, conhece-te melhor.
Vai viver sozinho. 
Passa noites calado, completamente calado e sem abrir a boca durante 5 horas.
Entretém-te, cativa-te, fortalece-te e lembra-te, lembra-te sempre e para sempre, lembrando-te saberás sempre quem foste, de onde vieste, quem conheceste, com quem estiveste, o que aprendeste, no que te tornaste, para onde queres ir e até onde já chegaste.
É pouco, ou achas que ainda não fizeste que baste?
Quando levantas o olho por cima do ombro, vês metade do que queres ver e a outra metade imaginas, fantasias, crias e inventas um cenário de possibilidade que te possa inicialmente parecer adverso, mas potencialmente contornável.
E só o fazes, porque sabes quem és, e o que queres ou não ver e enfrentar, e sobretudo como e quando é que o vais fazer.
Quando as mãos te tremem e falham, e a boca se seca e não se quer abrir, sentes o medo entrar-te inicialmente pelo estômago, quando ele de resto já te apanhou de raspão há horas.
Nesses instantes, tens-te a ti mesmo, e ou te encontras, ou… já sabes, não já?
Sem medos. 
Enfrenta as situações em que não és mais do que o pouco que és, no imenso em que vives, mas não deixes que essas sejam menos que invulgares vulgaridades, no mundo das liberdades e dos pensares recordados, recorda, lembra-te e carrega contigo quem queres levar para a estrada.
Horas contadas, histórias passadas e vidas cruzadas em estradas, desenhadas por quem nos permite assim chegar a cada novo encontrar.
Tens mesmo a certeza que dá para parar de olhar?
 

 

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