A demora… e a vida lá fora!

    Caminhando na solidão solitária das noites, percebeu que a percepção das coisas é tão real quanto real é a ideia do que somos, e do que queremos conseguir ser.
Na verdade não o percebeu totalmente sozinho, nem foi apenas na aquela noite.
Começou a perceber que as coisas se tinham vindo a tornar sorrateiramente mais compreensíveis, que se esgueiraram pela sombra e conseguiram acordar já mais translúcidas, objectivamente capazes de ser alguma coisa, no verdadeiro sentido da coisa.
    O acordar deixa de ser penoso, deixa de ser o tormento vagaroso e pestilento que até então preenchia os minutos iniciais do abandono do sono profundo, para passar a ser uma “coisa” meio indefinida, uma “coisa” não tangível, não alcançável, não é bem uma coisa, mas sim uma “coisa” mais ou menos estranha, que se entranha, que se enraíza e entrelaça nas fundações da alma e vive cada vez mais forte no clarear dos dias.
Percebe que as convicções se moldam em meses, que as certezas desaparecem, mas só às vezes, que as ideias se transformam em sonhos e que é bom conseguir sonhar sem lágrimas.
Sair de cena é tantas vezes prejudicial quantas mais é recuperador.
     Decide viajar, vai passar uns dias fora com uns amigos, e com amigos dos amigos.
E é de comer e chorar por mais.
Rir, chorar a rir, ver os outros a rir, fazer rir, rir mais, que bem que sabe!
E assim ele redescobre o mundo que escondeu dentro da gaveta dos acessórios de verão.
Chega a casa e percebe que sair do recinto onde luta todos os dias, lhe confere uma perspectiva diferente das coisas.
Estar fora implica olhar para algo que está física e realmente distante. 
Está lá, e agora estou aqui, é a conclusão a que chega, e sabe-lhe bem.
     Olha para os tormentos como olha para os papéis. Olha para a tristeza enquanto escolhe a sobremesa.
Ora, em que pensa ele? 
Em… viver.
E que pensamentos açambarca alguém que pensa em viver, quando está longe?
Que é capaz, que consegue, que tem força, que vai voltar e vai viver melhor?
Não sei e ele também não me responde.
     Sabe que acorda e se deita, dia após dia e gosta.
Sabe que sente e que deseja, que acorda e que se deita, que vive e gosta.
E não é bom sentir o doce beijar da liberdade do pensar?
E não é bom acordar e caminhar com a leveza de quem dança, com a doçura de um cantar, com a frescura no olhar, acordar e deitar, sentir e desejar e de tudo isto gostar?
É bom e é para aproveitar.
É para agarrar.
É para não largar.
     2012 cheira ainda às camisolas novas, tem uma certa leveza no caminhar que faz com que tudo pareça ainda tão belo, um outro melhor bom dia.
Cresce a passo largo, como se caminhasse para o comboio que por si não espera.
Está grande e desenvolto, o homem que parecia moço e que agora sobe na hierarquia.
Está atento e pensante, qual escritor inconstante que se atormenta com a apatia.
Sabe o que quer e sabe-o bem, escuta o seu nome no pensamento, é o seu nome que chamam, o seu e o de mais ninguém.
Feliz a curiosidade que matou o gato.
Mais gatos vieram.
Mais perguntas fizeram.
Mais verdades chegaram.
Mais ideias lançaram.
Mais respostas tiveram.
Gato escaldado de água fria tem medo.
Um gato molhado, um pensamento acabado, uma ideia, um segredo.
No futuro reside o temor, no escuro está o calor, de pensar que é por amor, que a vontade decresce e aumenta.
     Sei o meu nome e basta, nesta Natureza nefasta, basta repeti-lo para mim.
As letras junto e baralho, não sou apenas mais um paspalho, honra esta a de ser O Martim
Porquê?
Não há mais ninguém assim!
Esvazia-se o copo como se esvazia a lua.
A noite é minha e é tua, a pobre coitada está nua sem nada que a tape.
Como é incerta esta rua, onde a saudade se situa e chama por mim.
É verdade. 
É a grandeza da saudade.
Desculpa agora não posso falar.
Estou a trabalhar. A criar. A falar. A ditar. A ensinar. A espreitar. A respirar. 
Se eu não chego, quem vais chamar em meu lugar?
Duvido que alguém o consiga ocupar.
Não há nada como tentar.
Duvido que vá resultar.
Já disse que sou o Martim?
De repente podia ter-me passado ao lado e nada disto fazia sentido.
Até soa bem no ouvido, quando estou um bocado perdido e não me lembro de mim.

(Martim escreve de acordo com a grafia antiga. Já basta quando é obrigado)




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