Não…é natal!

É natal. Escrevo em letra minúscula porque sim, porque o Natal passou a ser natal, porque o estúpido passou a ser banal, porque o ridículo passou a ser normal, porque o premiar obsceno do abrupto é aceitável e o sofrimento condenável, a felicidade é subjectiva e o bem estar é concreto!
De que serve ao homem o bem estar infeliz ou incompleto?
De que vale a busca incessante, se por vezes pode ser na aceitação do real está solução?
É assim tão necessário sermos verdadeiramente felizes?
Quanto a vale a felicidade?
Quantas felicidades existem?
Daqui a pouco estou a perguntar quem sou e de onde vim e para onde vou, não que a mim não me enganam mais.
Por isso é que enquanto me apetecer vou escrever natal, com “letra pequena” só porque quero e por acho que chamar Natal ao natal é como chamar país a Portugal.
Estamos inundados de anúncios amigos do fim do mundo, do terror económico, da crise financeira, do fim do euro, da guerra, da política de responsabilidade, anúncios que nos aterrorizam por serem aos nossos olhos verdadeiros, como verdadeira é a vontade que temos de os fechar, para não vermos as coisas mais horríveis a que conseguimos aceder nos dias que hoje correm.
E a esses anúncios contrapõem-se os da vida eterna, da beleza incomparável, da robustez nas curvas, das praias mais fabulosas, dos voos mais baratos, das noites em pousadas de portugal, (lá está, propositadamente escrito com “letra pequena”, porque isto de país tem pouco) tudo, há de tudo, para todos, e não há dinheiro, nem subsídios de natal, e para o ano vão os de férias, e aumentam as taxas moderadoras, e fazem greve os maquinistas, e as pessoas não têm dinheiro para as “prendas”, e os preços aumentam, e aumenta o tabaco, e assim se vai indo.
Há semanas atrás falava com uma amiga que estava cheia de planos para o Natal (agora escrito com maiúscula por ser uma clara referência à época que se festeja na terra dela), importa dizer que a rapariga é finlandesa, da Finlândia (lá está, maiúscula, estamos a falar de um país). E às tantas começamos a falar de salários e dizia ela, eu sei que vocês aí ganham muito mal, tens de sair daí, e eu dizia, “mas achas que nós aqui ganhamos quanto, quanto achas que eu ganho?” e ela responde, eu a seguir digo-lhe o valor real e ela fica parva, e diz-me que lá, na Terra (segue a mesma lógica aplicada ao país de que se esta a falar) ninguém ganham menos de 3 vezes isso, a média geral são 3 vezes e meia).
E eu fui só ter um AVC alí à cozinha, e voltei.
E portanto ela comprou montanhas de presentes para a pequena família que tem, comprou um vestido para o Natal da Terra dela, é na Finlândia e por isso o Pai Natal não tem de fazer um desvio assim tão grande, até pode ir pela Nacional
Já aqui, o natal é outro.
Quase me sinto a ter vergonha de o celebrar, quase me sinto a ter vontade de sentir vontade que chegue o Natal, quase que gostava de gostar do Natal, mas não posso gostar do natal assim, não depois de tudo.
Há um duelo de forças nesta altura do ano.
Um duelo voraz de consciências que se interpelam pelo olhar, que esbanjam, gastam, uns por opção, outros por obrigação, outros porque é Natal, outros porque podem, porque querem, porque adoram, porque não deram nada todo o ano e esperaram pelo Natal, e as crianças, depois há isso, as crianças.
Aí reside o conflito, reside o centro de tudo isto.
O natal já não é só das crianças, é para as crianças, e para os pais gastarem o que têm e não têm, e depois chega a dia 26 e acabou, está tudo de volta na manhã seguinte.
É isto o natal. É isto o Natal? Está transformado numa rica coisa, está.
Quem o viu e quem o vê, como o vi e como o vejo, nem sei bem se o vejo, ou se o olho com desdém, não sei bem se é natal,  nem sei sequer se ele vem. E se vem? O que tem?
É suposto ele resolver alguma coisa? É suposto ter algum significado? Ou é um polvilho de alegria contada, que devolve à rua o lixo e à alma o anestésico de um par de dias, ou não.
Um pouco como se estivéssemos a polvilhar canela num pastel de nata.
Quero lá saber do natal.
Quero é saber da minha vida.
É nisto que estamos é isto que interessa hoje em dia.
Como pode haver unidade, se tudo nos separa e tudo se separa, e junta-se o que se deve e não se deve, o que deve com o que não deve, é tudo tão breve, e a brandura dos olhos, é a brandura da alma, o espelho do nada que não passa, e do passo que não se dá.
Talvez o natal seja de facto o pré balanço do final do ano, o primeiro momento em que se pára diante da família e se recorda em silêncio, quem recorda, o que aconteceu durante todo o ano. E este não foi o mais famoso, para muita, tanta gente, gente a mais.
A vida tem coisas curiosas, minutos engraçados, horas com piada, tardes de sonho, noites memoráveis, a vida tem tudo, de tudo, para muitos e não para todos, por certo, não para todos.
Afina, aponta, fixa, ergue, segue, persegue, morde, agarra, puxa, insiste, não desiste, aguenta, mais força, aperta, é teu, não larga, cuida, trata, protege, educa, mostra, fala, conta, diz, ri, chora, canta, berra, grita, dorme, é vida, é tua, agarra-a, continua, não larga.
O natal para o ano volta carismático e agregador como sempre.
A mesma disposição, a mesma conversa de ocasião, o mesmo delito de opinião, o cinismo, as vozes na cabeça, os olhares de soslaio, o sofrimento, a ausência, a tristeza, a estranheza, os núcleos, a família, e a outra parte dela, as memórias e a fuga para a janela.
As lembranças e…
É natal outra vez, diz-se assim em português.
É natural por ventura, e o que arde cura, como a ferida aberta que fica escura, que o olhar da ternura se perca na noite escura?
Tudo é natural. É natal. E no Carnaval também, ninguém leva a mal, é um festival.
O que terá feito Jesus nas outros 32 noites de natal que testemunhou?
Será que ele saía à noite depois de abrir os presentes?
Bebia uns copos com os amigos?
Ou será que era um menino certinho, e ficava em casa a ajudar a santa da mãe a lavar a loiça, e ia cuidar do presépio, que o deles era daqueles mesmo verdadeiro, com animais e tudo.. E todos os anos deviam ir lá por uma velinha para agradecer ao Senhor o filho que Ele deu ao mundo. José devia ir de trombas. A pensar, agora tenho de ir agradecer ao filho do, com todo o respeito, Outro? Pensaria ele, mas sempre de sorriso na cara, o cínico, cobardolas, que nem soube defender o filho e deixava-o andar de rabo de cavalo em casa, para não mergulhar os cabelos na sopa.
Jesus devia ser fresco, devia. 
Mãe vou sair.
Vais onde filho?
Vou ali pregar aquela aldeia ali ao lado.
O pai era carpinteiro. A mãe dizia, ta bem filho, mas tem cuidado não te aleijes, e pronto, era aquilo de vez em quando.
E depois voltava dias depois, sujo, a cheirar mal e dizia, olá Mãe.
E Maria: Filho onde estavas? A pregar Mãe. A baptizar pessoas. O normal.
E eis que surge a pergunta da noite.
E tentar enquadrar Jesus numa família da classe média portuguesa dos dias de hoje?
Sim, classe média.
Jesus teria o passe da Carris, tinha de ter, sub-23 com sorte, sabia as estações de Metro de cor e salteado, de todas as linhas, e sabia os autocarros, porque a mãe lhe dera um mapa.
Andava a pé.
Teria roupa de marca, tinha de ser igual aos outros, senão davam logo por ele e era um ver se te havias.
Na escola ainda levou umas quantas na cara, quando se pôs uma vez a dizer que era o Messias. E tudo a gozar com ele na sala, és o Messias és, tá calado ó Jisas
E isto durou até o professor o expulsar. E ele foi com essa conversa com o pessoal do 12º ano que tinha faltado às aulas, a dizer que era o Salvador, o Messias, o filho de Deus, levou tanta bofetada naquela cara, que parecia um pão de Mafra, não voltou cá a meter-se com conversas.
Jesus haveria ter um Iphone.
E que músicas iria ter?
Com a quantidade de músicas que foram feitas em sua honra, tinha aquilo bem composto.
Possivelmente iria também gostar de coisas variadas, e ia comer ao McDonalds e à roulotte, essa instituição portuguesa.
Na vida de adulto de hoje em dia, onde é que o rapaz ia arranjar tempo para andar a pregar por aí?
E a sociedade estaria preparada para um pregador em versão super herói?
Que durante o dia é Jesus, não o treinador do Benfica, o verdadeiro, e à noite, ou quando tem um tempinho é o Messias Salvador?
Levanto desde já as minhas reservas.
No natal é que eu queria ver o que é que ele fazia.
Como seria o natal de Jesus nos dias de hoje?
Não é irritação, indignação, ódio, tristeza, frustração, revolta. É simplesmente, um não é.
Para mim não é Natal, mas sim natal, eu é que sei, eu é que escrevo.


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