Cara de quê?

Há os caras de parvo, de rato, de coelho, de cavalo, de rabo, de estúpido, atrasado mental, boi a olhar para um palácio, de palácio a olhar para o boi, de quem mente, de quem está a falar a verdade, triste, alegre, zangada, infeliz, felicidade, simpatia, malandro, há caras para tudo.
Cara de quem recebeu uma má notícia, cara de quem soube que ia ser pai, de quem viu um fantasma, de quem viu a morte, de quem viu o chefe “comer” a colega de trabalho na casa de banho do pessoal, de quem viu um porco a andar de bicicleta, de quem não dormiu bem, de quem dormiu de mais, cara de quem já fez merda, de quem está a preparar alguma de quem se lembrou de alguma coisa, de quem não está nem aí para o que lhe estão a dizer, de quem está farto de me ouvir, cara de frete, a quem todos lhe devem e ninguém lhe paga, de cu, de quem queria estar em todo o lado menos aqui, de quem sabe e não conta, de empregado de mesa, de porteiro de discoteca, de troll, de otário, de quem está f*d**o, de quem recebeu a carta mas ainda não a abriu, de quem acabou de ver algo inacreditável, de quem está preso, de quem está doente, de quem tá a precisar de alguma coisa, ou de quem tem um palminho de cara.
É como digo ele há caras para tudo, para todos os gostos, para todas as caras.
E que cara tem que não tem cara para ser absolutamente nada, a não ser aquilo que é, nada.
Há ainda outro tipo de pessoas. Aqueles que têm cara de qualquer coisa, e que poderiam perfeitamente o porteiro do prédio, o empregado de balcão do café de todas as manhãs, o maquinista da carruagem do Metro das 07h05, o taxista de ontem do Marquês até ao Areeiro, qualquer coisa.
E esses passam por tudo, mas também são aquele tipo de cara de que todos se lembram e num instante todos se esquecem.
São aquilo a que alguém um dia sabiamente apelidou de “o homem comum”.
E o problema do “homem comum”, é que os seus problemas são também eles, problemas comuns.
O Benfica perdeu, o café está horrível, o almoço caiu-me mal, preciso de uma mini, acabou-se o açúcar, tenho o carro na reserva, deixei a carteira no carro e não me apetece ir lá buscá-la, estou farto da minha mulher e das mariquices da sala e dos jantares de chacha, amanhã não me apetece ir trabalhar, estou farto do meu chefe, se pudesse…
É tudo isto e um pouco mais.
O que me leva a concluir numa racional soma de problemas comuns com as caras que há, que a maioria dos homens de Lisboa ostentam o cognome de fiéis “homens comuns”.
Portanto, se me estás a ouvir e te queixas de algum mal, e fazes parte de algum deste tipo de caras, cuida-te porque és já um portador do síndroma do “homem comum” e no fundo estás condenado a lamentares-te da tua vida e de tudo o que te rodeia para o resto dos teus atormentados dias. Mas isso também não constitui qualquer problema para a tua alma, uma vez que nem sequer pensas na vida para a frente, só vês para trás, e só o que está lá atrás te interessa, mas olha rapaz, telefona se precisares, sabes que os amigos são para isto mesmo.
Isto sim é de amigo.
E sem fazer cara séria, simplesmente com a minha cara de parvo.
E está na cara que já vai longe a dissertação.
É dia de Natal, ou não?
Homem, faz o que de mais comum se faz, come o bacalhau, limpa a boca à mão, bebe mais um pouco, tanto não, tás louco?
Senta-te direito, chama os putos para se abrirem as prendas, que ainda queres ir ao café.
Para o ano há mais, vamos embora.
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