É para se ver… com os olhos!

Como devolver ao homem aquilo que mais falta lhe faz?
O que me faz mais falta a mim, é diferente do que te faz mais falta a ti, com toda a certeza.
Mas centremo-nos no que faz mais falta ao homem.
Quanto a mim, humilde escriba com aspirações ainda incertas nesta vida, que não a de ser apenas mais uma simples e esforçada formiga no carreiro, aquilo que mais falta faz ao homem, é sem dúvida o seu pensar livre, o seu articular maduro de ideias, que tanto podem ser simples derivações de caóticos devaneios, como podem ser exemplos puros e cristalinos de ambições e desejos bem expressos e concretos.
Perder essa capacidade, por forças exteriores à própria força de viver, é sem dúvida um tormento inqualificável e indescritível, como igualmente é indescritível a beleza da aurora, ou do sorriso de quem se ama.
Mas há o oposto, na beleza do momento em que sentimos que recuperamos essa mesma força, em que sorriem os olhos, se franzem as sobrancelhas, se rasga o sorriso e percebemos que estamos vivos, de boa saúde, e que conseguimos articular vocábulos e construir frases na mente, à velocidade de voos picados de aves de rapina, com a tenacidade furiosa de um sorriso de uma hiena, ou simplesmente com a simplicidade e despreocupação de uma brincadeira de criança.
Pensar é estar doente dos olhos dizia o senhor Pessoa,. Lamento mas tenho de discordar, que é para isso que servem as trocas de argumentos e é a conversar que nos entendemos, certo?
Ora, pensar é algo a que os próprios olhos estão, felizmente, obrigados, pois a derivação da informação que é recolhida pelo sentido superior da visão, permite a reflexão, a construção, a imaginação e a levitação das ideias que se cozinham e se transformam em conceitos, em normas, em máximas, em verdades.
Mistificamos tantas vezes as imagens que temos, ligadas aos sentimentos que a elas associamos, que nos esquecemos tantas vezes que o pensamento depende da imagética, depende da observação, ver para crer, como S. Tomé, e esta é uma expressão milenar e que não apareceu apenas porque o senhor Tomé tinha uma visão perfeita, nunca tendo consultado qualquer espécie de oftalmologista, ou beneficiado de qualquer desconto associado à idade.
Mais do que nunca, os tempos que atravessamos, obrigam-nos a manter os olhos bem abertos, obrigam-nos a não deixar escapar nada, como se fôssemos assassinos letais e treinados, que esperam pacientemente no telhado de um prédio alto, muito alto, pelo alvo a abater, atentos a qualquer movimento, a quem cruza a esquina, a quantas vezes se abre a porta do prédio da frente, ao nº de carros que passam com o semáforo verde, quantos a laranja e quantos vão para lá do vermelho.
Temos de ser meticulosos e concentrados, sob pena de deixarmos passar oportunidades, muitas delas singulares, que nos possam mostrar que o caminho se faz pela estrada paralela aquela em que seguimos, e que não vimos o desvio para a mesma, porque íamos a pensar na chamada “morte da bezerra”.
Meus caros, é de olhares que se constrói o mundo, é de mundos que se constrói a passagem fugaz pela vida, que de eterna nada tem.
Cada dia que passa é um dia a menos que temos.
Agora deixem-se andar de palas nas trombas, que é para isso que aqui andam é, para verem a vida passar-vos ao lado, seus idiotas.
Senhor Pessoa, uma vez mais perdoe-me a ousadia de ter discordado de si, ou melhor do Senhor Caeiro, que é muito simpático, mas também ele tem direito a dizer uns disparates de quando em vez, e nunca de vez em quando.
Ora, é isto mesmo.
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