Ser para alguém

Não poucas vezes nos pedem, nos exigem, quase que nos obrigam a que sejamos mais do que podemos ser, que estejamos disponíveis e capazes de dar mais, bem mais, do que aquilo que na verdade conseguimos ou estamos preparados para dar.
E para quê? Porquê? Com que fim? Com que propósito?
Por vezes, não estamos, não somos capazes, não nos é possível, não queremos, não podemos, não fazemos a mínima ideia de como é possível, ser mais, maior, melhor, diferente, ter mais força, mais vida, mais alma.
Regra geral quem o faz, tem bom fundo, tem boa vontade, tem acima de tudo vontade.
Mas, por favor, há dias em que a boa vontade se transforma numa cruel e frívola imposição, em ordem ditatorial malévola, mesmo que de forma inconsciente, e não é isso que se espera, nem tão pouco é isso que se tolera, em mais um inverno que caminha alegre e gelado rumo à primavera.
Diz quem vive, que a vida é um bem, um tesouro que se tem, e que nada de mais adorável existe, do que a incerteza do amanhã, do que acordar sem sequer imaginar, como vai desenrolar-se o período de várias horas que temos pela frente, e não sabemos de todo, o que vamos pensar quando nos estivermos a deitar.
A vida é para ser vivida à velocidade exigida, mas na dose bem medida, de quem sabe o que precisa para a sua própria existência.
Ao que chegamos quando o opinismo desenfreado, e o ímpeto desmesurado se tornam uma prática socialmente aceite, e quando aceite é o facto de qualquer pessoa se achar no direito de nos dizer o que devemos ou não fazer?!
Não sou mais nem menos, sou eu.
Gosto de gostar de quem sou, e quero gostar sempre.
Mas por vezes não gostar também faz parte, não querer também é arte, e não vejo que desça ao mundo grande mal por assim ser, vejo acima de tudo, que de tudo isto se faz a palavra crescer.
O homem faz-se das missões a que se propõe, e serão sempre da sua mais profunda responsabilidade os princípios adjacentes às mesmas.
Quero ser e serei um missionário, na real medida em que a missão me confere uma dose incomparável de felicidade e realização pessoal, que não conseguiria buscar em parte alguma.
Prometer é belo, cumprir é divino, torno-me mais a cada uma que cumpro, quero ser mais em cada uma que escolho.
Missão – Incumbência, encargo e em sentido figurado é uma função nobre a cumprir.
Nobre é o missionário e o propósito a que se propõe. Nobre serei então, numa terra sem Reis, rainhas, príncipes despóticos e princesas a cavalo, mas com pessoas de verdade, que ascendem aos meus olhos a títulos tão maiores do que estes.
São contos os que escrevo, perdidos num imaginário tão pessoal e próprio que me fazem acreditar.
E no acreditar diz que está o ganho, e no acreditar digo que está o sentido mais puritano do existencialismo mundano.
Se deixar de acreditar, deixarei de existir, tal como o poeta que afirmou que deixar de existir seria o deixar de sentir.
Deixarei tudo pela crença, mas nunca deixarei de me sentir na diferença que pauta aquilo que creio que sou.

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