Schiuuu… Deixa-me em paz!

    É então que decido calar-me, ela quase que acata o meu silêncio premeditado. Não me recordo se ela terá sequer emitido qualquer outro som nas longas, penosas e subservientes duas horas que se seguiram. 
Deve ter sido um “vai à merda” sentido e puxado do fundo da alma, ou talvez não, talvez tenha sido um “vai à merda” totalmente inofensivo e até um pouco manco numa das sílabas que os fazem caminhar até aos ouvidos, e, posteriormente, até ao sistema nervoso central que descodifica a mensagem que acaba de chegar, fresquinha, crua, bruta, e numa fracção de segundo, tão assustadoramente rápida quanto brilhante, faz o delicado favor de nos traduzir por miúdos aquelas três palavrinhas que correctamente ordenadas de modo a formarem uma frase, assumem, quando o momento é criteriosamente escolhido, claro está, o poder de um “Vai à merda!!!”, que todos nós conhecemos. Fora isso, não passará nunca de uma expressão perfeitamente vulgar e vulgarmente tomada como um factor indicativo de uma educação menos correcta, ou mesmo da total ausência da mesma.
   Ignorando completamente todas estas regras de merda, soltei um furioso “Vai à merda” com o objectivo de a mandar para o pior sítio que existisse num raio de alguns, vastos, quilómetros quadrados, com a rapidez de um pestanejar, ou melhor, tão depressa que nem o meu pensamento fosse sequer capaz de me mostrar um qualquer desses locais, onde a certas horas, nem a mais infeliz das almas com quem diária ou vulgarmente nos cruzamos, gostaria de estar a assobiar, por um amanhã melhor do que o dia que simplesmente já se começa a tornar grande de mais para tanta merda. 
    Sim, eu sou um “qualquer coisa” perturbado que gosta de repetir com bastante frequência, e do modo mais deselegante possível a palavra merda, se não for estar a atribuir demasiada importância ao chamado palavrão, que para mim nem palavra é.
No entanto, para mim existe um sem número de coisas que o são, e que nunca o deveriam ter sido. Mas não adianta atalhar por esse caminho novamente, lá estás tu a ser fintado pelo previsível fio condutor do teu pensamento audacioso, mas monótono.
– Dás-me um cigarro por favor? – diz ela rompendo o silêncio tão saudável.
– Sabes bem que deixei de fumar!
– Pfff. Pensei que isso tinha sido mais um acto desesperado e pretensioso, daqueles que tanto gostas aos domingos de madrugada, de preferência quando chove, pois a carga dramática das tuas palavras assume sempre um especial relevo quando chove, nesses dias, vai se te o sono e não sabes mais o que hás-de fazer, para mudar a triste figura que adquires quando chove.
– Estão na primeira gaveta da cómoda da sala.
– Obrigado.
– Não me perguntas se quero beber alguma coisa?
– Sabes onde estão as coisas, vai ao armário, serve-te, bebe e desaparece. Hoje é Domingo!
E o rugir daquela frase ecoou tão alto, de uma forma tão incrivelmente forte e decidida, que até a mim me surpreendeu. 
    Devo confessar que não me deixo surpreender com facilidade.
Chega a ser deveras incomodativa a capacidade que tenho de me manter impenetrável, nas mais diversas situações em que o mais comum dos mortais se choca, impressiona, entristece, revolta, chora, berra, ou parte objectos comprados com o suor do seu estúpido trabalho.
O mesmo se aplica para quando essa besta resolve esmurrar uma parede, ou um qualquer objecto inanimado que não tenha a legítima possibilidade de protestar ou de se defender contra a injustiça de que está naquele momento a ser vítima, a não ser que consiga provocar em quem revoltadamente o agride, alguma mazela de ordem física que ainda o fará sentir-se pior, mais revoltado, mais desesperado, mais triste, mais chocado com a dimensão exacta, cabalmente demonstrada, da sua estupidez! 
    Bater numa parede, numa árvore, num móvel, acaba sempre por sair mais caro do que o instinto agressivo nos consegue demonstrar. Quem tem a infelicidade de o fazer acaba sempre por guardar uma recordação física do momento de glória em que corajosamente encheram o peito de ar, cerraram um dos punhos e com a plenitude das forças que conseguiram reunir naquele momento, avançaram para o dito objecto inanimado como se não houvesse amanhã. Resultado final? Acabarão sem dúvida sentados no sofázinho da sala, olhando para a televisão com carinha de sofrimento próprio de quem é estúpido que nem uma porta, com um saco de gelo sobre a mão, que a mamã, a companheira ou companheiro, ou mesmo a avózinha, fizeram questão de preparar, para que o menino não ficasse com um hematoma gigantesco na mão, qualquer coisa semelhante a um tubérculo transmontano de cor arroxeada, ou a um fenómeno vegetal do Entroncamento.
   Senhor Pessoa, como está? Tudo bem?
Agora ouça-me bem. As cartas de amor não são ridículas, isto sim é ridículo, seres humanos a esmurrar paredes ou árvores com 200 anos, com o moralismo incomparável e inabalável de quem, pela primeira vez se está a dirigir a uma praia de nudistas. 
   Por certo estarão a pensar, mas quem é que consegue ter moral elevada na primeira vez que vai a uma praia de nudistas?! Deixem-me que vos diga, que quem não tem essa mesma moral elevada na sua primeira visita, das duas uma, ou nunca mais lá volta com vergonha de ser reconhecido, ou nunca mais de lá vem, com medo de ser visto no caminho de regresso a casa. 
    Estou farto de pensar, vou até à cozinha beber qualquer coisa. 
Adoro estes momentos únicos em que me posso sentar sozinho na sala a beber um copo, eu e o meu Domingo.
    E assim faz, levanta-se, calça um dos chinelos, porque nem sequer tem paciência para apanhar o par, entristecido e abandonado debaixo do armário de pinho envernizado que herdou do seu avô, e que serve tantas vezes como tema de conversa de circunstância, com um qualquer transeunte que nada tem a dizer sobre a vida, que nem sequer ao menos imagina que a vive. Passa por ela, nem ao menos a vislumbra, mas sente-a, isso sim, sente-a. Ela indigna-se com o facto de ele passar e nem reagir á sua presença e suspira. Ele sorri com ar de gozo, isto é, sorri mas insultando a sua previsibilidade.
    Regressa da cozinha, descalça o chinelo, apaga a televisão, corre os cortinados para melhor observar a lua, e deixa-se abraçar pela doce companhia do seu Domingo, o que a deixa incomodada. 
Dá o primeiro de muitos goles no seu copo preferido, que contém a sua bebida preferida, uísque barato, incoerências de um minimalista existencial.
    Levanta-se, abre uma das gavetas do armário de pinho, e tira um maço de tabaco, abre-o e tira um cigarro. Devolve o maço ao armário, volta a sentar-se e diz-lhe:
– Já que não me deixas em paz ao menos bebe e senta-te, mas de preferência longe de nós.
– A falta de sexo deixou-te assim foi? Anda, podemos resolver isso num instantinho… Sim porque contigo basta apenas, um instantinho. – diz ela desabotoando os dois primeiros botões da camisa e soltando lentamente os seus maravilhosos cabelos castanhos cor de avelã, abrilhantados por umas encantadoras madeixas loiras. 
    Ele olha-a pelo canto do olho, dá o segundo gole no seu copo preferido, que contém a sua bebida preferida, prepara-se para responder, quando de súbito ouve o ecoar, em jeito de som estridente que tem o seu relógio de parede, que o informa indelicadamente que já é uma hora da manhã. 
    Sente um formigueiro crescente pelo corpo, como se o ódio de mil socos numa só parede se tivesse de repente lembrado de aparecer, não lhe dando sequer tempo de se preparar, de tomar um banho, de se vestir e de esperar pela sua chegada. Levanta-se, vai direito a ela, aproxima a sua boca dos lábios dela, suave, leve, levemente e de súbito cospe-lhe para cara.
– Faz amor com isto, porca.
Ela limpa a cara, despe a camisa e vai deitar-se na cama dele.
– Sai daí.
– Porquê?
– Porque eu te estou a pedir.
– Tens de ser bem mais convincente para eu me ir embora.
– Mas porquê? Deus, porque me abandonaste? Ou melhor, a resposta a esta já eu sei. Porquê hoje?
– Porquê hoje?! Que dia melhor para ser estragado que este teu dia de recreio em que espalhas a tua melancolia pelas desprotegidas colinas da cidade de Lisboa enquanto te enfrascas da maneira mais triste possível, apoiado na estupidez fatalista que tanto te caracteriza. Se tudo isso não bastasse agarras-te a um imaginário infantil onde te dizes acompanhado por um dia da semana, claro está, o Domingo.
– Conta-me mais sobre esse trauma Domingueiro.
– Não há mais nada para dizer.
– Tens vergonha do que te atormenta?!
– Não, simplesmente não tens que saber mais nada sobre mim. Já sabes coisas a mais, e conhecendo-te como te conheço…
– Tens medo que possa usá-lo contra ti?
– Que perspicácia minha querida, adoro esses teus raros rasgos de inteligência. Duas e meia da manhã. Não tens nada para fazer amanhã? Não há nada que te faça ir embora? 
Que tenho eu de fazer para conseguir ver-me livre de ti por alguns dias? Diz-me!! Começo a ficar cansado da tua presença na minha vida.
– Tens de me dar aquilo que eu quero
– Perdi esse apetite há muito tempo atrás. E tu sabe-lo bem, estava contigo nessa mesma noite, na noite em que percebi que apenas a noite me servia. Na noite em que percebi que já não era mais do que uma estúpida recordação daquilo que um dia pude, soube e consegui ser.
– Vais começar com isso outra vez? Esse teu discurso de coitadinho e mal amado já me enerva. Mas sabes que ainda não consegui esquecer as noites e os dias em que me conseguias dar algo mais de ti do que essa triste figurinha melancólica e ultrapassada em que te tornaste. És fraco! Não mereces sequer que tenham pena de ti, ainda que me pareça que seja isso que tanto procuras, tanto com os homens como com as mulheres. Vou tomar banho.
– Desculpa?!
– Estás desculpado. Onde estão as toalhas?
Seguiu-se um silêncio invulgarmente estranho entre ambos. Um daqueles silêncios que se assemelham aos mais ruidosos momentos que qualquer um de nós se consegue recordar de já ter presenciado, por exemplo o ruído de uma claque de um clube que joga em casa e que vence o maior rival do seu país por um resultado expressivo de 3-0. Ela de pé, junto ao corredor que antecedia os quartos e a casa de banho de um 3ºandar de uma zona bonita e desejada da grande Lisboa, casa que tinham conseguido alugar 3 anos antes, na altura que ele ainda sonhava e não tinha o Domingo como refúgio desesperado de uma alma inexplicavelmente vazia. Nessa altura sim, nessa altura creio que era feliz, hoje sabe-se apenas que gosta dos Domingos e de Whisky reles como a lã de cágado.
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