As ruas da cidade falam baixinho

São 23:30 de uma escurecida Terça-feira de Inverno.
Há já muitas horas que o Sol partiu.
Não sei mesmo se não se trata de uma parva suposição, esta que se me assemelha a um sonho.
Sonho que sonhei que hoje vi o SOL, mas não.
Não faço ideia de qual foi a última vez que o Sol visitou a tímida Lisboa, para com ela se sentar à mesa e conversar um pouco.
O sol, tal como os Portugueses, virou as costas a Lisboa.
Corre o ano de 2010, Lisboa, já não caminha sobre os seus pés, mas sobre umas lagartas de um qualquer Tanque que o exército nunca usou e então, mui gentilmente, resolveu doá-los à Capital, na esperança, que desta forma, Lisboa fosse capaz então de passar por cima de todos os obstáculos com os quais se depara no seu triste e escurecido viver.
Mas o tiro saíu pela Culatra, nesta expressão tão discaradamente sulista. Lisboa não só não andou sobre lagartas, como fez greve.
Saíu inclusivé em todos os jornais dessa manhã. Lisboa em Greve.
À primeira vista poderia tratar-se de uma qualquer partida de Abril, mas não, Lisboa não só fez greve, como recusou sentar-se em cima daquelas grotescas lagartas, que o gentil General de Mar e Guerra, embora ninguém saiba de que guerra e de que mar, fazem parte o senhor General.
Lisboa, fez aquilo que os lisboetas não tiveram a coragem para fazer.
Amotinou-se, manifestou-se, perdeu o medo, tomou umas pastilhas para a garganta, e gritou bem Alto:
Andar é um direito, a reboque nada feito.
Parou tudo.
Os semáforos, as bombas de gasolina, os candeeiros, os esgotos, o rio, as pontes, restaurantes…
Parecia uma acção combinada.
E foi.
Mas Lisboa fala baixinho, transmitem-se informações codificadas, à boa maneira Francesa, aquando da Invasão Alemã.
Os bolos sabem mal, os autoclismos não puxam, as pedras não rolam, os candeeiros, esses sim, motores da vida nocturna do Burgo, não acenderam, e Lisboa tremeu, estremeceu, olhou de par em par, sem uma única lâmpada a iluminar, e os que olham, a tentar adivinhar ou preocupados em encontrar a cintilância desaparecida, a luz amorfa, mas apenas encontraram uma cidade regressada ao século XVIII, e á calmia noctívaga das lamparinas e dos candeeiros a petróleo, ou simplesmente velas e fósforos.
Foi impressionante subir ao Castelo de São Jorge, às apalpadelas, e ver uma cidade mantida à luz das velas, ou á desordenada iluminação das Lanternas tremelicantes.
Imaginem se assim fosse, se Lisboa se apagasse a cada noite que passasse, e se novamente se acendesse a cada manhã que vivesse.
Lisboa falaria por certo baixinho á noite, para não acordar quem descansa, e de manhã pediria aos galos que não cantassem, para que a cidade despertasse suavemente.
As ruas de Lisboa, essas sim, inromperam num silêncio ensurdecedor.
A noite trouxe consigo, o silêncio abrupto a que ninguém estava indiferente.
Foi como se pela primeira vez em séculos, Lisboa tivesse pedido descanso, o descanso que merece.
Quem atura o que esta cidade atura, quem passa pelas atrocidades que Ela (em maíusculas, porque Lisboa é sagrada) passa, merece sem dúvida umas férias de quando em vez.
Lisboa, não tem férias, não recebe o subsídio, nem o rendimento, como tal, trabalha sem folgas, de Sol a Sol, mesmo quando o Sol não aparece.
Assim, descansa Lisboa, deixar-te-emos dormir descansada, para acordares mais animada.

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