Maria sofria de Amor

Ele diz que sim, que não, que talvez seja então, uma palavra ou simplesmente um adorável pregão de mercado.
Maria tinha 22 anos naquele dia, nem mais nem menos, nem ao menos mais do que tinha anteirormente, no dia que antecedeu, o último dia em que viveu.
Sempre fora uma rapariga diferente, estranhamente bela, estranhamente intelegente, naturalmente estranha.
Dormia mais do que a conta, contava mais do que sabia, sabia mais do que dizia, em todas as noites em que não dormia.
Assim era Maria, mais quente que fria, mas doce que a amarga azia.
Ora nesse dia, Maria saíu cedo, mais cedo do que era habitual. Deu uma justificação normal, nada que fizesse questionar, o vulcão de atrocidades que Maria estava a preparar no mais recôndito recanto do seu fugaz e trucidado pensamento.
Saíu de casa ainda cedo, mais cedo do que nos outros dias, mas quem sabe o que iria fazer Maria?
Nada de grave se pensaria.
Maria sofria de Amor, e então? Que mal tem? Quantas e tantas Marias sofrem todos os dias, iguais desventuras amorosas, sem nunca serem penosas, somente sofrem em silêncio, riem por vezes chorando, não sendo o seu desgoto tão brando, quanto a dor que têm de viver, sem nunca o amor conhecer.
Maria vagueou por Lisboa, sem nunca olhar para ninguém, caminhou caminhando segura, de que era chegada a altura, perfeita por ventura, para deixar então de viver.
E nada a iria demover.
Tratou de tudo o que tinha pendente, não foi a nada indiferente, sabia que ia morrer.
Esperou pela tranquilidade da escuridão que a noitelhe trazia, era este o deleite de Maria. Sorrir na noite mais fria, sorrir mais do que de dia, sorrir por se sentir MARIA, e não outra mulher qualquer.
Comeu um peixe de rio, jantou à beira da Água. Escolheu um daqueles restaurantes na marginal, na confluência entre as àguas do Tejo, e os cabelos finos do Oceano.
Tinha escolhido a forma mais perfeita para morrer: O SALTO PARA LIBERDADE ABSOLUTA, iria saltar da ponte 25 de Abril, podia vê-la de onde comia.
Comeu de tudo, e mais alguma coisa. Foi sózinha e ainda assim conseguiu fazer uma conta de 68 euros e 46 cêntimos.
Presunto com Ananás de entrada, seguida de uma sopa de peixe. Bebeu um Dão, Reserva de 1991, em seguida, Cherne no forno com uma fantástica guarnição e molho de manteiga de Ovelha. Terminou com uma sobremesa fantástica e um digestivo poderoso. ArDbeg, o fenomenal Whisky Escocês.
Pagou a conta, desfeita em sorrisos, seduzindo da forma mais óbvia o empregado de mesa, que estava prestes a ter uns 20 minutos seguintes do mais alucinante que alguma vez imaginara.
Fábio, 23 anos, trabalhava ali há algum tempo, tinha empenhado todas as suas forças e argúcia naquele emprego e era agora, responsável pelos vinhos.
Ela chamou-o sem falar, ele seguiu-a até à zona do WC, ele olhou por cima do ombro, ninguém repara na sua pausa, ela entrou na casa de banho, deixou a porta aberta e convidou-o a entrar.
Assim fez, assim que entrou, foi de imediato atacado, despido, violado por Maria. Foram 20 minutos de um prazer SELVÁTICO, entre orgasmos múltiplos atingidos com uma facilidade de morte, Maria baixou a saia, puxou as cuecas e saíu, nem chegou a dizer o seu nome, ao incrédulo Fábio.
Dirigiu-se para Alcântara. Eram os últimos minutos da sua vida. Ela sabia-o, mas mais ninguém o adivinhava.
Os segundos que passa no semáforo que permite a inversão de marcha no início da Avenida de Ceuta, são gelados como o Inverno Siberiano, não fala, desliga o rádio, escuta o motor do seu carro, que em breve gritará pela última vez.
Sente os pés a gelar, o pulsos a perderem o seu batimento, está prestes a tomar uma decisão que será irreversível.
A decisão já há muito que foi tomada, o passo em frente será sem dúvida o mais difícil de dar.
Pára o carro naquela espécie de berma, onde costumam estar os perspicazes agentes da brigada de trânsito, nas manhãs de Verão, nas manhãs em que o tabuleiro da ponte se enche invariavelmente de autocarros cheios de crianças que vão para a praia.
Pára o carro, fuma um cigarro, olha para a Lua, a noite é sua, respira fundo. Deixa o telemovel em cima do banco, escreve uma mensagem de despedida, grava-a no telefone, sabe que irá ser encontrado.
Não quer despedir-se de ninguém, mas acredita que alguém poderia ter querido despedir-se de si.
Caminha apressada, pois não quer ser travada na sua missão.
Chega ao tabuleiro, os carros que passam não percebem o que faz, nem a vêem sequer. Por fim está já pendurada, do lado de fora, pronta, há um carro que a vê, felizmente está no sentido oposto.
Num momento que marcará a vida daquele condutor, olha por cima do ombro, funde os seus olhos com os olhos dele, sorri, ele trava bruscamente! Ela salta.
Ele viu-a partir sem nunca a conhecer, apaixonou-se sem chegar a perceber, o que levou aquela mulher a decidir-se por Morrer.
Maria não viria a ser encontrada, foi pela corrente levada, para sempre se se fundiu, entre o Oceano o Rio, fez deles a sua morada.
Pobre desgraçada, Maria morreu frustrada, será para sempre lembrada, como uma mulher abeçoada, pela morte que a despiu.
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