(SOBRE)viver.

(SOBRE)viver neste planeta parece estar a tornar-se cada vez mais dramático, mais problemático, mais difícil, impossível, pouco provável, para quem não tem a sorte de ter contas em bancos, de estudar, de ter uma família, de ter uma casa, carro, mota, para quem não tem a sorte de passar férias em países que não o seu, ou numa cidade que não a sua. É realmente preciso ter muita sorte para se poder (SOBRE)viver nos tempos modernos.Tudo custa os olhos da cara, o “sistema” arranjou maneira de lhe estarmos sempre a dever alguma coisa, para pagar a casa, o carro, as férias, as obras, a escola dos miudos, os sapatos que se rompem, os cadernos que se rasgam, as canetas que se partem. Arranjamos maneira de serpentear pelo meio de tudo isto e conseguimos acordar de manhã e sorrir, conseguimos inclusivamente arranjar maneira de sermos felizes.
Na verdade o ser humano é qualquer coisa de verdadeiramente fantástico.
Ontem assisti a uma cena de felicidade no meio do terror que têm sido estes dias no Haiti. Uma criança, de 8 anos se não estou em erro, e é possível que esteja, pois têm sido tantas as vítimas e tantos os números “avançados”, como se diz na gíria, daquela que eu espero vir a ser a minha futura profissão, (sobre)viveu durante uma semana, debaixo de escombros. O mais curioso, se é que existe alguma coisa de curioso no meio daquela calamidade, sem que seja mórbido em primeiro lugar, claro está. Mas como estava eu a dizer, o mais curioso, foi que a mesma criança permaneceu durante uma semana encolhida na posição fetal, como se de facto tivesse inconscientemente recorrido, à sensação de protecção do ventre materno.
As imagens alcançam sem dúvida um poderio devastador, mas imaginar este cenário não deixa de ser assustadoramente real e tocante. A vontade e a força de viver, superiorizaram-se à fatal partida do destino, à desmedida e descontrolada fúria da natureza, sobre aqueles que pouco mal lhe fazem.
No fim de contas sobreviver foi foi bem mais fácil do que será agora viver o resto da sua vida, com a dor de ter perdido a família, e de ter um futuro praticamente definido pela falta de oportunidades que a (SOBRE)vivência no seu país lhe reserva. Boa sorte pequenino, bem vais precisar.
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